
sexta-feira, 26 de outubro de 2007
quinta-feira, 25 de outubro de 2007
domingo, 21 de outubro de 2007
O PCP, o BE e o Tratado Reformador
A esquerda está a reagir de forma diversa ao Tratado Reformador.
Uns insistem na perda de poder dos países pequenos com o novo método de votação por duplas maiorias, na perda de deputados, na perda das presidências rotativas. Partindo de uma visão nacionalista Portugal perdeu, perdeu independência, perdeu soberania.
Outros reagem insistindo na origem anti-democrática do Tratado, que esconde do povo a sua real substância e faz da vacuidade socrática a unidade das burguesias europeias; utilizem elas partidos socialistas ou conservadores como correia de transmissão.
Em verdade a ausência de democracia marca o ponto fraco destas burguesias. Antes a derrota imposta pelos povos francês e holandês só era possível prosseguir sem democracia.
A democracia convoca a discussão e a responsabilidade popular, convoca as inteligências e traz a luta de classes para o centro do conflito – porque os políticos não são todos os mesmos. É um bom ponto de partida para discutir o Banco Central Europeu e as taxas de juro que estão a ser impostas, um exército europeu e as guerras imperialistas, a flexi-segurança e a destruição dos direitos dos trabalhadores…
Insistir na vertente nacional pode arregimentar gente saudosa do tempo do escudo e da existência de fronteiras em Vilar Formoso, pode diminuir espaços para que a extrema-direita não roube votos ao PCP, pode até fazer renascer ideias de saída da UE.
Na visão de cada partido, em particular PCP e BE, a oposição a este Tratado faz-se por argumentos diferentes, mas uma coisa é certa: existe um mercado único, uma burguesia europeia entrelaçada numa burguesia mundial, existe uma moeda única e um banco central. Também por isso é preciso existir um combate europeu ao capital, um combate europeu ao neoliberalismo, um combate europeu que junte forças sociais e partidos numa acumulação de forças.
Um combate que convoca os portugueses, para atacar no ponto mais fraco que a burguesia tem agora: a negação do referendo. A moção de censura que o BE anunciou é um a ideia positiva.
Uns insistem na perda de poder dos países pequenos com o novo método de votação por duplas maiorias, na perda de deputados, na perda das presidências rotativas. Partindo de uma visão nacionalista Portugal perdeu, perdeu independência, perdeu soberania.
Outros reagem insistindo na origem anti-democrática do Tratado, que esconde do povo a sua real substância e faz da vacuidade socrática a unidade das burguesias europeias; utilizem elas partidos socialistas ou conservadores como correia de transmissão.
Em verdade a ausência de democracia marca o ponto fraco destas burguesias. Antes a derrota imposta pelos povos francês e holandês só era possível prosseguir sem democracia.
A democracia convoca a discussão e a responsabilidade popular, convoca as inteligências e traz a luta de classes para o centro do conflito – porque os políticos não são todos os mesmos. É um bom ponto de partida para discutir o Banco Central Europeu e as taxas de juro que estão a ser impostas, um exército europeu e as guerras imperialistas, a flexi-segurança e a destruição dos direitos dos trabalhadores…
Insistir na vertente nacional pode arregimentar gente saudosa do tempo do escudo e da existência de fronteiras em Vilar Formoso, pode diminuir espaços para que a extrema-direita não roube votos ao PCP, pode até fazer renascer ideias de saída da UE.
Na visão de cada partido, em particular PCP e BE, a oposição a este Tratado faz-se por argumentos diferentes, mas uma coisa é certa: existe um mercado único, uma burguesia europeia entrelaçada numa burguesia mundial, existe uma moeda única e um banco central. Também por isso é preciso existir um combate europeu ao capital, um combate europeu ao neoliberalismo, um combate europeu que junte forças sociais e partidos numa acumulação de forças.
Um combate que convoca os portugueses, para atacar no ponto mais fraco que a burguesia tem agora: a negação do referendo. A moção de censura que o BE anunciou é um a ideia positiva.
quinta-feira, 18 de outubro de 2007
A saudação do PCP ao Partido Comunista da China
O Avante, desta quinta-feira, dá conta da saudação ao PCChinês:
«Ao XVII Congresso doPartido Comunista da China
Em nome dos comunistas portugueses, o Comité Central do Partido Comunista Português saúda calorosamente o XVII Congresso do Partido Comunista da China, formulando os melhores votos de sucesso aos seus trabalhos e à acção dos comunistas chineses em prol do desenvolvimento e progresso social, fortalecendo o objectivo proclamado da construção de uma sociedade socialista.«Estamos certos que o sucesso do processo de grandes transformações económicas, sociais, políticas e culturais na China, tornando já hoje a China um factor de primordial importância das relações internacionais, possui um inegável significado para a luta dos povos pela sua soberania e dignidade e é um contributo para a sua resistência à tentativa do imperialismo de reforçar a prática unilateralista e instaurar uma nova ordem mundial exploradora e totalitária.«Entendemos que no actual quadro internacional marcado por uma grande complexidade e acrescidas preocupações para os trabalhadores e os povos - quando se intensifica a escalada militarista e a inquietante ameaça de novas agressões e se multiplicam os perigos colocados à paz mundial -, assume uma renovada importância a necessidade do desenvolvimento e fortalecimento do relacionamento entre partidos comunistas e outras forças progressistas.«Em Portugal, deparamo-nos hoje com a mais violenta ofensiva contra as conquistas democráticas da revolução de Abril de 1974 e os direitos dos trabalhadores. Uma política de direita conduzida pelo Governo do PS que, agravando as desigualdades e injustiças sociais, fazendo disparar a precariedade e o desemprego, limitando e ameaçando o exercício de liberdades fundamentais e cavando a dependência económica de Portugal, tem vindo a afectar o nível de vida dos trabalhadores e populações, ao mesmo tempo que beneficia com escandalosos lucros o sector financeiro e o capital monopolista. «Não obstante as dificuldades que a situação apresenta, o PCP - profundamente empenhado na luta de massas e na ligação aos trabalhadores e às populações -, reforça-se no plano orgânico e na sua influência social e intervenção institucional. Vemos o reforço do Partido como condição fundamental para a mudança de rumo político no país e a afirmação do nosso projecto de uma democracia avançada para Portugal, que garanta o progresso social e a independência nacional, aproximando o horizonte da transformação socialista, iniciada há precisamente 90 anos com a Revolução de Outubro.«Reiterando o desejo de maiores êxitos aos comunistas, aos trabalhadores e ao povo chinês e confirmando a vontade de aprofundar as relações de amizade e cooperação entre o PCP e o PCC, enviamo-vos as nossas fraternais saudações.Outubro de 2007O Comité Central doPartido Comunista Português».
«Ao XVII Congresso doPartido Comunista da China
Em nome dos comunistas portugueses, o Comité Central do Partido Comunista Português saúda calorosamente o XVII Congresso do Partido Comunista da China, formulando os melhores votos de sucesso aos seus trabalhos e à acção dos comunistas chineses em prol do desenvolvimento e progresso social, fortalecendo o objectivo proclamado da construção de uma sociedade socialista.«Estamos certos que o sucesso do processo de grandes transformações económicas, sociais, políticas e culturais na China, tornando já hoje a China um factor de primordial importância das relações internacionais, possui um inegável significado para a luta dos povos pela sua soberania e dignidade e é um contributo para a sua resistência à tentativa do imperialismo de reforçar a prática unilateralista e instaurar uma nova ordem mundial exploradora e totalitária.«Entendemos que no actual quadro internacional marcado por uma grande complexidade e acrescidas preocupações para os trabalhadores e os povos - quando se intensifica a escalada militarista e a inquietante ameaça de novas agressões e se multiplicam os perigos colocados à paz mundial -, assume uma renovada importância a necessidade do desenvolvimento e fortalecimento do relacionamento entre partidos comunistas e outras forças progressistas.«Em Portugal, deparamo-nos hoje com a mais violenta ofensiva contra as conquistas democráticas da revolução de Abril de 1974 e os direitos dos trabalhadores. Uma política de direita conduzida pelo Governo do PS que, agravando as desigualdades e injustiças sociais, fazendo disparar a precariedade e o desemprego, limitando e ameaçando o exercício de liberdades fundamentais e cavando a dependência económica de Portugal, tem vindo a afectar o nível de vida dos trabalhadores e populações, ao mesmo tempo que beneficia com escandalosos lucros o sector financeiro e o capital monopolista. «Não obstante as dificuldades que a situação apresenta, o PCP - profundamente empenhado na luta de massas e na ligação aos trabalhadores e às populações -, reforça-se no plano orgânico e na sua influência social e intervenção institucional. Vemos o reforço do Partido como condição fundamental para a mudança de rumo político no país e a afirmação do nosso projecto de uma democracia avançada para Portugal, que garanta o progresso social e a independência nacional, aproximando o horizonte da transformação socialista, iniciada há precisamente 90 anos com a Revolução de Outubro.«Reiterando o desejo de maiores êxitos aos comunistas, aos trabalhadores e ao povo chinês e confirmando a vontade de aprofundar as relações de amizade e cooperação entre o PCP e o PCC, enviamo-vos as nossas fraternais saudações.Outubro de 2007O Comité Central doPartido Comunista Português».
- O PC Chinês está a trabalhar para uma sociedade socialista? Então o que caracteriza o socialismo é a brutal exploração e repressão da classe operária?
- A China luta pela dignidade dos povos a nível mundial?
- A China está-se a opôr a esta ordem mundial e ao capitalismo?
- A China tem lutado pela paz mundial?
Realmente, nem a microscópico se consegue encontrar alguma coisa que se possa responder sim a qualquer uma das perguntas!
domingo, 30 de setembro de 2007
Menezes, Sarkozy e Sócrates
Menezes ganhou as eleições do PSD. Menezes inspira-se na política do presidente francês, mas este tem como ídolo José Sócrates. O que fica deste "trio amoroso"?
Para já Sócrates parece ganhar um aliado para a não realização de um referendo ao tratado europeu. Menezes não brinca em serviço, a estabilidade do plano neoliberal europeu em primeiro lugar. Parece que a regionalização e a revisão das leis eleitorais também farão consensos entre eles.
A oposição, como Menezes já prometeu, passará pela transferência total dos serviços públicos para o lucro privado. Sócrates abriu as portas, a direita - cada vez mais extrema - entra por elas.
Para já Sócrates parece ganhar um aliado para a não realização de um referendo ao tratado europeu. Menezes não brinca em serviço, a estabilidade do plano neoliberal europeu em primeiro lugar. Parece que a regionalização e a revisão das leis eleitorais também farão consensos entre eles.
A oposição, como Menezes já prometeu, passará pela transferência total dos serviços públicos para o lucro privado. Sócrates abriu as portas, a direita - cada vez mais extrema - entra por elas.
sexta-feira, 21 de setembro de 2007
Lula, o feitor do capitalismo cruel
Mais um excelente testemunho de Léo Lince publicado no site brasileiro http://www.correiocidadania.com.br
Feitor do capitalismo cruel
O presidente Lula é um pragmático do poder. Como tal, ele navega com desenvoltura no papel de governante mascate, inteiramente afinado com a lógica do horror econômico que, de algum tempo até esta parte, controla as alavancas do poder mundial. Pode ser vaiado em estádios de futebol, mas em platéia de banqueiros o aplauso é certo.
Na recente temporada européia, ele fez questão de reafirmar orgulhoso o seu empirismo radical (não se governa com princípios), ao mesmo tempo em que se ofereceu como artífice da subordinação da economia brasileira aos apetites mais destrutivos do modelo dominante no mundo dos negócios. A natureza e o mundo do trabalho que se cuidem, pois vem mais chumbo grosso.
Exemplo? Perguntado, durante encontro com empresários espanhóis, sobre as condições desumanas do trabalho dos cortadores de cana no Brasil, ele reagiu perguntando se o corte de cana seria mais “penoso” que trabalhar numa mina de carvão. O combustível que alimentou na Revolução Industrial o impulso primitivo do capitalismo, sem dúvida, foi produzido nas condições da mais brutal exploração do trabalho humano e de agressão à natureza. A julgar pelas notícias sobre os mortos por exaustão no inferno verde das plantações de cana de São Paulo, o etanol se candidata a repetir no século 21 a mesma trajetória de horrores.
Segundo o historiador Jacob Gorender a comparação feita pelo presidente “foi extremamente infeliz e injusta, não é digna de um líder de origem operária como ele”. No entanto, mais do que infeliz e injusta, o que a comparação tem de terrível é o seu caráter revelador. Nela, a brutalidade da exploração do trabalhador e a agressão ao meio ambiente aparecem como “destino”, fatalidade natural, e não como escolha política a partir de uma determinada correlação de forças sociais.
A bestial brutalidade da acumulação primitiva, que espantou o mundo e gerou reações como a “lei dos pobres” na Inglaterra, seguida de outras propostas que marcaram o processo civilizatório (filantropia social, sindicalismo, caixas de ajuda mútua, solidarismo cristão, estado de bem estar social, socialismo), retorna com força total no globalitarismo financeiro. Liberta dos inconvenientes do controle social, a essência destrutiva que sempre habitou o cerne do capital é a catástrofe que nos ameaça.
E o presidente mascate, esquecido do seu tempo de retirante, se apresenta para cumprir o papel que lhe cabe na engrenagem infernal. No carvão ou na cana, para não atrapalhar o fluxo dos negócios, o destino do trabalhador, no século 18 ou no 21, é comer o pão que o diabo amassou. É um imperativo categórico para o crescimento, coisa natural e inevitável, a prática que agride o meio ambiente e esfola o trabalhador. Ao governante, como pensa o presidente mascate, resta o papel de apertar as alças do garrote vil.
Alguns estudiosos de outros tempos sombrios, aqueles dominados pela vigência direta do trabalho escravo, lançam luz sobre um aspecto curioso das relações de poder no interior do mecanismo de exploração do trabalho. O feitor mais eficaz, aquele que com mais desenvoltura acionava o chicote, era o ex-escravo. Mudou de lado e, por isso mesmo, está sempre obrigado a renovar as provas de sintonia fina com o senhor. O raciocínio, infelizmente, se aplica ao caso em pauta: o presidente mascate é um feitor do capitalismo cruel.
20-Set-2007
Léo Lince é sociólogo.
domingo, 16 de setembro de 2007
Os comunistas e os acordos de poder

Em http://comunistas.info é publicada uma interessante entrevista com Luís Fazenda, líder da bancada parlamentar bloquista, sobre o problema da participação dos comunistas nos governos. A entrevista também foca o recente acordo com o PS para a CML. Aqui fica a dita, para ler com atenção.
"A perspectiva do socialismo como estratégia pode passar por participações no governo ou não passar. Não há dogma. Depende da análise concreta da situação concreta, da natureza da crise do capitalismo, da predisposição das massas trabalhadoras, da relação de forças internas e externas ao país, entre outros factores."
Comunistas.info: Achas que a participação de comunistas e da esquerda em coligações faz sentido em pleno capitalismo, e sem que primeiro se opere a grande transformação social, económica e política a que chamamos revolução?
Comunistas.info: Achas que a participação de comunistas e da esquerda em coligações faz sentido em pleno capitalismo, e sem que primeiro se opere a grande transformação social, económica e política a que chamamos revolução?
Luís Fazenda: A participação de formações marxistas em governos de coligação no quadro do capitalismo não é, só por si, surpreendente. Já nos anos 30 do século passado, esse facto impôs-se com o governo de Frente Popular em França, apontado pela Internacional Comunista como exemplo a seguir para travar o ascenso do fascismo. Não se desconhece toda a imensa controvérsia sobre essa posição, quer antes, quer depois. No geral, essa polémica apenas alimentou o sectarismo e facilitou a vida a aspirantes à burguesia. Convém lembrar que, já antes, com objectivo diferente, o de aprofundar a crise do capitalismo, Lenine não tinha descartado a possibilidade de coligações entre os comunistas, outras alas esquerdas, e social-democratas. O dirigente comunista punha a finalidade de frente única em oposição ao oportunismo ministerialista dos social-democratas em governos burgueses. Tratava-se de situações em que o avanço revolucionário não seria imediato. Essas reflexões pouco passaram disso mesmo devido ao massacre dos comunistas alemães em 19, não sendo o único caso de repressão à ordem dos social-democratas. Não se pode simplificar a história e fazer equivaler situações de parlamentarismo, levantamento revolucionário, ou guerra imperialista. Não o farei aqui. Devo apenas sublinhar que a questão não é nova e que a formulação dos objectivos de um governo de coligação é o seu conteúdo, e que a composição e forma de tal governo só pode ser a garantia desses objectivos. Envolver esta questão no debate entre reforma e revolução só turva a táctica dos partidos. A perspectiva do socialismo como estratégia pode passar por participações no governo ou não passar. Não há dogma. Depende da análise concreta da situação concreta, da natureza da crise do capitalismo, da predisposição das massas trabalhadoras, da relação de forças internas e externas ao país, entre outros factores.
Comunistas.info: Como comentas as diversas experiências em curso no mundo em que os comunistas e outras formações de esquerda participam em soluções de governo, na Europa e no Mundo?
Luís Fazenda: Das experiências enunciadas de participação actual de comunistas em governos formados pela via parlamentar convém talvez deixar para outra reflexão a experiência de governos regionais na Alemanha, Catalunha, Brasil ou Índia. Pontuam aqui realidades muito diferentes, tempo e competências muito diferentes, partidos comunistas eles próprios muito diferentes também. Em todo o caso são governos afastados do núcleo da soberania do estado, portanto não definitórios do perfil dos marxistas face ao poder. Parece que se devem dispensar desta análise os ex-comunistas da Suécia e da Finlândia que renunciaram ao objectivo do socialismo. Faço notar que o Partido da Esquerda da Suécia proclamou como finalidade alcançar o “capitalismo democrático”. Nas condições internacionais actuais, de aguda defensiva das forças socialistas e democráticas, a meu ver, só faz sentido participar em governos de coligação com outras forças e aí dar o sinal dos comunistas, caso esse governo rompa com as políticas neo-liberais e com a máquina de guerra da NATO. Exceptuam-se, claro, circunstâncias, nesta ou naquela zona do globo, em que estados possam atravessar uma formidável convulsão e a prioridade seja a paz imediata e a instauração da democracia. Os marxistas não escolhem aliados em abstracto por mero catálogo ideológico. A luta social pode vir a abrir, em Portugal e em vários países da União Europeia, a possibilidade de um “governo de esquerdas” desatrelado do hegemonismo dos EUA, reestruturando os direitos sociais. Contudo, esse contexto não parece ser próximo. O centro da nossa atenção só pode estar virado para isolar os capitães da finança e os sargentos de escala do poder. A participação dos comunistas sul-africanos no governo do país tem, a meu ver, claramente dois momentos. O primeiro compromisso, sob a égide de Mandela e do ANC, inteiramente justificável e necessário, para consolidar a vitória sobre o regime racista, facto de alcance mundial. Nos últimos anos, lamentavelmente, o PC da África do Sul persiste equivocadamente no poder, sancionando um capitalismo muito agressivo contra os trabalhadores sul-africanos. Nos casos do Brasil e de Itália, ressalvando as imensas características diversas dessas experiências, os comunistas propuseram-se mitigar o neo-liberalismo. Sem sucesso e com desfecho dúbio. O governo francês de Jospin já tinha mostrado o desastre desse ensaio. Especialmente grave é o envolvimento objectivo da Refundação Comunista de Itália na política externa pró-NATO de Prodi.
Comunistas.info: Como aprecias a esta luz as peripécias na formação de uma vereação de coligação em Lisboa? E quais as implicações que a participação ou recusa poderão ter para as fases seguintes do processo político português, nomeadamente quanto à competição das legislativas daqui a dois anos?
Luís Fazenda: A partilha de responsabilidades executivas na Câmara Municipal de Lisboa deriva de uma dinâmica local, no caso do Bloco de Esquerda. O PCP durante muitos anos apresentou a coligação PS-PCP na CML como a prova de que era possível uma aliança nacional entre esses partidos. Mais do que a letra dos documentos vale a interpretação de Carvalhas em muitas entrevistas públicas. Hoje a antiga “prova” passou a “corpo de delito”. O voto dos cidadãos tem demonstrado que crescentemente se separa a esfera autárquica da esfera parlamentar. Julgo que as pessoas vão fazer essa distinção em 2009. Tanto para aqueles que decidiram tomar responsabilidades executivas como para os que o não fizeram no caso autárquico, e sem interferência relevante na disputa das legislativas. Uma coisa é um acordo limitado a algumas políticas da cidade, outra bem distante é uma avaliação sobre o rumo liberal da governação e das alternativas. O Bloco de Esquerda não manipula as autarquias para a política nacional. Creio mesmo que no nosso país é uma temeridade pensar que o espaço autárquico seja privilegiado para alterar a rota geral de qualquer partido. Infelizmente é o espaço mais feudal da política. A desagregação do bloco central de interesses passa muito pelos movimentos sociais, em marco nacional e em frente europeia.
sexta-feira, 14 de setembro de 2007
O caso Renan Calheiros, a boazona e o PT
O caso Renan Calheiros mostra o ponto a que chegou o PT do Brasil. Entre os vários artigos publicados há um elucidativo publicado em http://www.correiocidadania.com.br/content/view/846/45/. É o que passamos a transcrever. Por ironia, publicamos seguidamente a foto promotora da playboy sobre a menina de Renan e um cómico gráfismo sobre o caso.
Escrito por Léo Lince
13-Set-2007
O mau exemplo vem de cima aos borbotões. Para sustentar um morto-vivo na presidência do parlamento brasileiro, o Senado Federal teve que adquirir temporariamente as feições de um sarcófago. Conhecida em outros tempos como câmara alta, a casa funcionou como um curral enlameado, um verdadeiro baixio das bestas.
O voto foi secreto, a sessão foi secreta, os microfones e fios telefônicos foram cortados, os celulares proibidos. Não houve ata escrita ou registros gravados para a história de tudo o que foi dito em tal conclave de anormais. Os patrocinadores e os beneficiários do evento precisavam das sombras para agir com desenvoltura e alcançar o seu desígnio imediato. Conseguiram.
Todos sabem que se o voto fosse aberto e a sessão escancarada o resultado seria outro. Era preciso afastar os olhos do povo e estabelecer uma lacuna no registro histórico para que os maus representantes pudessem operar no contraponto dos anseios da consciência digna da cidadania. Para salvar não apenas o indigitado Renan, mas também o tipo de política que ele bem representa, o Senado Federal entrou na clandestinidade.
No teatro de sombras, rolou de tudo. Os jornais de véspera noticiaram que empresários pressionavam senadores. Não disseram quais, nem precisava. São os de sempre. A malha de cumplicidades que articula o mundo dos negócios com a política de negócios sempre opera na penumbra. Na sessão fechada, o acusado teve condições de distribuir ameaças e chantagens sem quebrar a “omertá”. E, longe dos olhos do cidadão, a bancada do PT adquiriu uma súbita desenvoltura na defesa do seu aliado. A elisão da ótica, como talvez diria o deputado Chico Alencar, facilitou ainda mais o avanço da “ilusão de ética”.
Ainda não se sabe ao certo qual será o desdobramento, no ânimo geral da sociedade, de mais esse tapa na cara da cidadania. O desencanto da massa do povo com a política, que já era grande, tende a aumentar. Ao mesmo tempo, é bom registrar que nas chamadas estruturas intermediárias que organizam minimamente a vida social a reação foi de rechaço e de manifesta indignação ao acontecido. Para estes, o tal “manto de silêncio” não funcionou. Serviu mais para mostrar do que para encobrir e, dependendo do rumo dos acontecimentos, pode virar mortalha para seus patrocinadores e beneficiários.
O circo montado para a fatídica votação secreta do Senado foi uma apoteose da pequena política. O governo jogou pesado. Nomeou para os altos escalões, liberou emendas, colocou seu líder e seu articulador político na tropa de choque. O PT operou de uma maneira no aberto e de outra no fechado. Quando Lula declarou que o importante era respeitar a decisão soberana do Senado, certamente, já sabia do acórdão.
Os vitoriosos com o resultado, execrados pela opinião pública, comemoram envergonhados. Os que perderam caminharão nas ruas de cabeça erguida. As “cartas dos leitores” recolhem o sentimento da cidadania. Os parlamentares que recorreram ao Supremo para furar o bloqueio funcionam como um enclave de vida no parlamento amortalhado. O pequenino PSOL, que desencadeou o processo, já engatilha outros petardos na cartucheira. São, entre outras, expressões do rechaço da sociedade ao tipo de governabilidade que, no episódio em pauta, adquiriu feições na simbiose Lula - Renan.
Léo Lince é sociólogo.


Escrito por Léo Lince
13-Set-2007
O mau exemplo vem de cima aos borbotões. Para sustentar um morto-vivo na presidência do parlamento brasileiro, o Senado Federal teve que adquirir temporariamente as feições de um sarcófago. Conhecida em outros tempos como câmara alta, a casa funcionou como um curral enlameado, um verdadeiro baixio das bestas.
O voto foi secreto, a sessão foi secreta, os microfones e fios telefônicos foram cortados, os celulares proibidos. Não houve ata escrita ou registros gravados para a história de tudo o que foi dito em tal conclave de anormais. Os patrocinadores e os beneficiários do evento precisavam das sombras para agir com desenvoltura e alcançar o seu desígnio imediato. Conseguiram.
Todos sabem que se o voto fosse aberto e a sessão escancarada o resultado seria outro. Era preciso afastar os olhos do povo e estabelecer uma lacuna no registro histórico para que os maus representantes pudessem operar no contraponto dos anseios da consciência digna da cidadania. Para salvar não apenas o indigitado Renan, mas também o tipo de política que ele bem representa, o Senado Federal entrou na clandestinidade.
No teatro de sombras, rolou de tudo. Os jornais de véspera noticiaram que empresários pressionavam senadores. Não disseram quais, nem precisava. São os de sempre. A malha de cumplicidades que articula o mundo dos negócios com a política de negócios sempre opera na penumbra. Na sessão fechada, o acusado teve condições de distribuir ameaças e chantagens sem quebrar a “omertá”. E, longe dos olhos do cidadão, a bancada do PT adquiriu uma súbita desenvoltura na defesa do seu aliado. A elisão da ótica, como talvez diria o deputado Chico Alencar, facilitou ainda mais o avanço da “ilusão de ética”.
Ainda não se sabe ao certo qual será o desdobramento, no ânimo geral da sociedade, de mais esse tapa na cara da cidadania. O desencanto da massa do povo com a política, que já era grande, tende a aumentar. Ao mesmo tempo, é bom registrar que nas chamadas estruturas intermediárias que organizam minimamente a vida social a reação foi de rechaço e de manifesta indignação ao acontecido. Para estes, o tal “manto de silêncio” não funcionou. Serviu mais para mostrar do que para encobrir e, dependendo do rumo dos acontecimentos, pode virar mortalha para seus patrocinadores e beneficiários.
O circo montado para a fatídica votação secreta do Senado foi uma apoteose da pequena política. O governo jogou pesado. Nomeou para os altos escalões, liberou emendas, colocou seu líder e seu articulador político na tropa de choque. O PT operou de uma maneira no aberto e de outra no fechado. Quando Lula declarou que o importante era respeitar a decisão soberana do Senado, certamente, já sabia do acórdão.
Os vitoriosos com o resultado, execrados pela opinião pública, comemoram envergonhados. Os que perderam caminharão nas ruas de cabeça erguida. As “cartas dos leitores” recolhem o sentimento da cidadania. Os parlamentares que recorreram ao Supremo para furar o bloqueio funcionam como um enclave de vida no parlamento amortalhado. O pequenino PSOL, que desencadeou o processo, já engatilha outros petardos na cartucheira. São, entre outras, expressões do rechaço da sociedade ao tipo de governabilidade que, no episódio em pauta, adquiriu feições na simbiose Lula - Renan.
Léo Lince é sociólogo.
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quinta-feira, 13 de setembro de 2007
A confusão "comunista" e a Festa do Avante

(foto: http://pantanero.blogs.sapo.pt/)
A Festa do Avante é um acontecimento de elevado valor cultural. A ela confluem imensas pessoas independentemente do partido a que pertencem. Deve-se valorizar essa referência.
A festa é também um momento de debate, bem patente no programa deste ano.
Um dos debates mais aguardados foi o que juntou o Partido Comunista do Brasil, no poder com o governo Lula e o PT (também presente), o Partido Comunista da China e o Partido Comunista da Federação Russa. Poderia ter sido um grande debate em torno das questões mais inquietantes nomeadamente quanto à relação dos comunistas com o poder e os programas que rompam com o neoliberalismo e com a guerra imperialista. Mas isso não saiu.
Gostaríamos de ter ouvido de Altamiro Borges, um escritor sempre presente no portal Vermelho, outras palavras sobre a tese de “um governo em disputa” mas sempre legislando cada vez mais à direita que, como cá, faz coisas que nem o anterior foi capaz, que ataca os direitos sindicais e dos trabalhadores, que nega a sempre prometida reforma agrária; gostaríamos de ter ouvido de Altamiro outra informação sobre como se faz uma coligação, o Bloco de Esquerda, com partidos como o PDT que controlam centrais como a direitista Força Sindical ao mesmo tempo que se lança uma nova central sindical sem procurar união de forças do combate dos trabalhadores.
Gostaríamos de ter ouvido do representante chinês outras palavras sobre a democracia na China – a democracia para o povo – enquanto sobe exponencialmente a riqueza de uns poucos, a diferenciação de classes e uma brutal repressão sobre a classe operária… ou sobre o entrelaçamento da China com os EUA e as suas posições conciliadoras (para não dizer um adjectivo mais verdadeiro mais duro) com o belicismo e a guerra opressora.
Noutros lugares, gostaríamos de ter ouvido do representante do MPLA qualquer coisa sobre porque não há eleições em Angola, porque a família Dos Santos enriquece escandalosamente e escandalosamente faz intenção de mostrar a usurpação das riquezas e do esforço do povo angolano, submetido a dura fome, miséria e desemprego, expulso de suas casas (barracas) à frente da tropa de choque para que aí se instalem as novas urbanizações da florescente burguesia angolana.
Só se pode acabar como Sérgio Ribeiro começou o debate “Vivemos um tempo de enganos em que as palavras são úteis para iludir”.
A festa é também um momento de debate, bem patente no programa deste ano.
Um dos debates mais aguardados foi o que juntou o Partido Comunista do Brasil, no poder com o governo Lula e o PT (também presente), o Partido Comunista da China e o Partido Comunista da Federação Russa. Poderia ter sido um grande debate em torno das questões mais inquietantes nomeadamente quanto à relação dos comunistas com o poder e os programas que rompam com o neoliberalismo e com a guerra imperialista. Mas isso não saiu.
Gostaríamos de ter ouvido de Altamiro Borges, um escritor sempre presente no portal Vermelho, outras palavras sobre a tese de “um governo em disputa” mas sempre legislando cada vez mais à direita que, como cá, faz coisas que nem o anterior foi capaz, que ataca os direitos sindicais e dos trabalhadores, que nega a sempre prometida reforma agrária; gostaríamos de ter ouvido de Altamiro outra informação sobre como se faz uma coligação, o Bloco de Esquerda, com partidos como o PDT que controlam centrais como a direitista Força Sindical ao mesmo tempo que se lança uma nova central sindical sem procurar união de forças do combate dos trabalhadores.
Gostaríamos de ter ouvido do representante chinês outras palavras sobre a democracia na China – a democracia para o povo – enquanto sobe exponencialmente a riqueza de uns poucos, a diferenciação de classes e uma brutal repressão sobre a classe operária… ou sobre o entrelaçamento da China com os EUA e as suas posições conciliadoras (para não dizer um adjectivo mais verdadeiro mais duro) com o belicismo e a guerra opressora.
Noutros lugares, gostaríamos de ter ouvido do representante do MPLA qualquer coisa sobre porque não há eleições em Angola, porque a família Dos Santos enriquece escandalosamente e escandalosamente faz intenção de mostrar a usurpação das riquezas e do esforço do povo angolano, submetido a dura fome, miséria e desemprego, expulso de suas casas (barracas) à frente da tropa de choque para que aí se instalem as novas urbanizações da florescente burguesia angolana.
Só se pode acabar como Sérgio Ribeiro começou o debate “Vivemos um tempo de enganos em que as palavras são úteis para iludir”.
quarta-feira, 12 de setembro de 2007
o segundo Vietname
O império achou que podia controlar o Iraque. Fora do jogo dos sistema capitalista normalizado e do comércio monopolista o Iraque e as suas riquezas eram um pitéu apetecível. Além do mais, as multinacionais tinham dificuldade em integrar o território e a sua economia nos seus lugares de lucro. Bombardear o Iraque não afectava as fábricas da VW, da Intel, da Wallmart…
O ataque foi rápido e mediatizado. As recentes maravilhas da máquina de guerra imperialista desfizeram rapidamente a resistência. As TVs até davam conta de alguns festejos populares.
Mas parece que não há sol que sempre dure. Uma coisa foi ocupar e derrotar militarmente, outra foi exercer um sistema de poder “normalizado” e rapinar eficazmente o petróleo. A pouco e pouco o caos instalou-se. O governo não governava, o petróleo não saía, a crise tornou-se fome , matança, desespero total. Todos contra os ocupantes e todos contra todos.
Caiu a mentira que sustentava politicamente a guerra e a pouco e pouco caíram os aliados dos EUA. Agora até os ingleses falam em retirada – se Brown quizer ganhar as eleições.
A guerra não dá lucro, tornou-se um sorvedouro de dinheiro.
A guerra tornou-se uma derrota militar. Todos os dias caem militares norte-americanos vitimados por bombistas suicidas – uma das novidades desta guerra. Todos os dias as Tvs americanas anunciam que morreram mais uns tantos.
A mediatização dos caixões é tal que o governo proibiu que se filmasse a sua chegada. A mediatização da morte dos soldados é o facto novo que traz a derrota para dentro das portas do centro do império.
Agora as comparações são com o Vietname apesar de ainda ter morrido um décimo dos americanos que morreram nesse país. É a mediatização que marca a diferença.
A derrota é total, militar, política, ideológica, económica.
O problema agora é outro, é como sair, e aí voltam as imagens do Vietname. O problema agora já não é como ficar, é como sair.
O ataque foi rápido e mediatizado. As recentes maravilhas da máquina de guerra imperialista desfizeram rapidamente a resistência. As TVs até davam conta de alguns festejos populares.
Mas parece que não há sol que sempre dure. Uma coisa foi ocupar e derrotar militarmente, outra foi exercer um sistema de poder “normalizado” e rapinar eficazmente o petróleo. A pouco e pouco o caos instalou-se. O governo não governava, o petróleo não saía, a crise tornou-se fome , matança, desespero total. Todos contra os ocupantes e todos contra todos.
Caiu a mentira que sustentava politicamente a guerra e a pouco e pouco caíram os aliados dos EUA. Agora até os ingleses falam em retirada – se Brown quizer ganhar as eleições.
A guerra não dá lucro, tornou-se um sorvedouro de dinheiro.
A guerra tornou-se uma derrota militar. Todos os dias caem militares norte-americanos vitimados por bombistas suicidas – uma das novidades desta guerra. Todos os dias as Tvs americanas anunciam que morreram mais uns tantos.
A mediatização dos caixões é tal que o governo proibiu que se filmasse a sua chegada. A mediatização da morte dos soldados é o facto novo que traz a derrota para dentro das portas do centro do império.
Agora as comparações são com o Vietname apesar de ainda ter morrido um décimo dos americanos que morreram nesse país. É a mediatização que marca a diferença.
A derrota é total, militar, política, ideológica, económica.
O problema agora é outro, é como sair, e aí voltam as imagens do Vietname. O problema agora já não é como ficar, é como sair.
sábado, 8 de setembro de 2007
A propósito da propriedade privada

A recente invasão de jovens ecologistas de uma propriedade privada trouxe intensa polémica. A burguesia e seus representantes no poder, no sistema partidário e na imprensa sairam em alvoroço contra tão bárbara agressão. O texto que aqui reproduzimos traz-nos uma abordagem qualificada centrada na
Ideologia da posse
A palavra ideologia é utilizada com vários sentidos na história do pensamento humano. Podemos fazer referência aqui, basicamente, a dois deles e que caracterizam significativamente sua utilização política: a) a ideologia para Marx, como sendo um conjunto de construções teóricas com a pretensão de falsificar a interpretação da realidade e manter situações de opressão; b) a ideologia para Gramsci, designando um conjunto de idéias, crenças e valores que constituem a visão de mundo de um determinado grupo social ou povo. Assim, embora pareça existir uma mera contradição entre as duas compreensões, há características que as unificam, visto que não há uma leitura absoluta da realidade. A ideologia (visão de mundo de um povo) não deixa de ser uma pretensão de verdade, contendo falsificações e, por outro lado, mesmo que as admitamos, não é possível abandoná-las, já que as pessoas não são neutras e seu posicionamento implica uma postura ideológica.
A propriedade é um princípio central da disputa ideológica na sociedade. Para o liberalismo a propriedade é encarada como um direito sagrado do indivíduo e, portanto, interessa sobremaneira sua legitimação em forma de lei para a preservação da ordem social. Um dos principais pensadores ao qual os liberais recorrem para afirmar o direito à propriedade é John Locke, utilizando, principalmente, sua obra Segundo Tratado sobre o Governo Civil. Em Locke encontramos uma defesa da propriedade como resultante do trabalho humano. A função do Estado passa a ser a instituição da garantia de preservação da propriedade: “Considero, portanto, o poder político o direito de fazer leis, para preservar e regular a propriedade” [1]. Para Locke “o homem procura juntar-se em sociedade com outros que já estão unidos, ou pretendem unir-se para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens que chamo propriedade” [2]. Verifica-se, assim, que, para Locke, a idéia de propriedade se refere à vida, à liberdade e aos bens, sendo que os liberais, em sua leitura, confundem propriedade com bens. Com base no conceito de Locke, a propriedade não necessariamente precisa ser privada, inclusive porque se os bens concentrados não cumprem com o princípio da vida e da liberdade o conceito de propriedade se anula. Locke chega a enfatizar, claramente, a função social dos bens, afirmando que estes pertencem ao indivíduo somente em caso de abundância e de garantia de manutenção da sua boa qualidade para terceiros[3]. Para Rousseau, importante pensador do jusnaturalismo e um dos primeiros críticos sociais, a propriedade configura a origem da desigualdade entre os seres humanos. Através do Estado e do Direito, os burgueses só converteram em lei (convenções) o que antes já possuíam por força (o que não constituía um direito). “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, quantas guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: ‘defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!”[4].
Mais tarde, Proudhon caracteriza a propriedade como sendo um “roubo” e, principalmente com Marx, o direito burguês da propriedade passa a ser o maior alvo da crítica social. Importante para o debate posterior, entretanto, é a necessidade de regulamentar a propriedade como acessível a todos, ou então, assegurar a sua função social.
Diante do exposto, nos parece impossível conceber a discussão da propriedade como “não ideológica”, já que ela assume uma centralidade na luta de classes e é apresentada como origem do Estado e do próprio arcabouço jurídico. Não podemos, nesse sentido, deixar de discutir os fundamentos do direito de propriedade e seguir aplicando simplesmente o que uma determinada lei prevê, sob o risco de estarmos reproduzindo o ideário jurídico burguês-liberal. É necessário, portanto, construir uma postura crítica do próprio Direito, para que a interpretação jurídica tenha qualquer pretensão de justiça. Ao trazermos a questão da propriedade para a esfera do Direito, no entanto, nos confrontamos com outro conceito, freqüentemente utilizado para determinar ações que se relacionam com a propriedade: a posse. Cabe então uma interrogação: qual é a relação do direito de posse com a propriedade?
A discussão acerca da posse como um direito jurídico nos remete a uma complexidade intrínseca à sua definição conceitual. Segundo Savigny a posse independe da propriedade e sua centralidade está no possuidor. Para Jhering, o que fundamenta o direito de posse é a propriedade privada, contrariando Savigny e apresentando uma abordagem mais progressista da questão. Analisando a etimologia da palavra posse (no latim) essa confere a caracterização de domínio, assenhoramento, dominação e apropriação. Com o decorrer do tempo, o Direito desenvolveu várias compreensões acerca do termo. No Direito germânico medieval, por exemplo, a posse consistia no domínio sobre algo, como sendo um direito real, não sendo admitida a violação da posse sem que, com isso, estivesse pressuposta a violação da propriedade. O Direito romano, por sua vez, separou a posse da propriedade. O Direito Canônico também teve sua participação na construção de um entendimento do conceito de posse, ampliando o campo da aplicação possessória, estendendo-a aos direitos pessoais e “espiritualizando” a posse.
No debate atual cabe a reflexão sobre a manifestação da ideologia nas ações jurídicas acerca da posse e até que ponto isso é negativo ou positivo. Para evitar o reforço à estrutura sócio-econômica de opressão social, a única alternativa viável é romper com a lógica positivista do Direito. No entanto, como parece inevitável a presença da ideologia, também no Direito (já que não há neutralidade entre sujeitos e toda interpretação é subjetiva), é importante pautar o quanto o progresso permanece possível diante do que está dado como lei. Portanto, a pretensão é meramente seguir a lei, para que ela seja cumprida, ou, ao interpretá-la, construir novos sentidos para sua aplicação que podem contribuir para a constituição de leis mais progressistas, estando a sociedade ciente do que elas significam?
O jurista, certamente, tem uma participação importante no estabelecimento de uma lei, a ponto de participar da responsabilidade na sua futura interpretação, alteração ou permanência. Por isso, a consciência da presença da ideologia e a exigência da crítica constante dos elementos fundantes da posse e da propriedade são decisivos na atuação jurídica, de forma que os efeitos da interpretação e da aplicação de leis possam se dar com vistas a uma maior mobilização, organização e participação da sociedade civil. Caso contrário, o Direito permanece conservado como mero aparelho ideológico a serviço da manutenção da desigualdade e da injustiça social.
A propriedade é um princípio central da disputa ideológica na sociedade. Para o liberalismo a propriedade é encarada como um direito sagrado do indivíduo e, portanto, interessa sobremaneira sua legitimação em forma de lei para a preservação da ordem social. Um dos principais pensadores ao qual os liberais recorrem para afirmar o direito à propriedade é John Locke, utilizando, principalmente, sua obra Segundo Tratado sobre o Governo Civil. Em Locke encontramos uma defesa da propriedade como resultante do trabalho humano. A função do Estado passa a ser a instituição da garantia de preservação da propriedade: “Considero, portanto, o poder político o direito de fazer leis, para preservar e regular a propriedade” [1]. Para Locke “o homem procura juntar-se em sociedade com outros que já estão unidos, ou pretendem unir-se para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens que chamo propriedade” [2]. Verifica-se, assim, que, para Locke, a idéia de propriedade se refere à vida, à liberdade e aos bens, sendo que os liberais, em sua leitura, confundem propriedade com bens. Com base no conceito de Locke, a propriedade não necessariamente precisa ser privada, inclusive porque se os bens concentrados não cumprem com o princípio da vida e da liberdade o conceito de propriedade se anula. Locke chega a enfatizar, claramente, a função social dos bens, afirmando que estes pertencem ao indivíduo somente em caso de abundância e de garantia de manutenção da sua boa qualidade para terceiros[3]. Para Rousseau, importante pensador do jusnaturalismo e um dos primeiros críticos sociais, a propriedade configura a origem da desigualdade entre os seres humanos. Através do Estado e do Direito, os burgueses só converteram em lei (convenções) o que antes já possuíam por força (o que não constituía um direito). “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, quantas guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: ‘defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!”[4].
Mais tarde, Proudhon caracteriza a propriedade como sendo um “roubo” e, principalmente com Marx, o direito burguês da propriedade passa a ser o maior alvo da crítica social. Importante para o debate posterior, entretanto, é a necessidade de regulamentar a propriedade como acessível a todos, ou então, assegurar a sua função social.
Diante do exposto, nos parece impossível conceber a discussão da propriedade como “não ideológica”, já que ela assume uma centralidade na luta de classes e é apresentada como origem do Estado e do próprio arcabouço jurídico. Não podemos, nesse sentido, deixar de discutir os fundamentos do direito de propriedade e seguir aplicando simplesmente o que uma determinada lei prevê, sob o risco de estarmos reproduzindo o ideário jurídico burguês-liberal. É necessário, portanto, construir uma postura crítica do próprio Direito, para que a interpretação jurídica tenha qualquer pretensão de justiça. Ao trazermos a questão da propriedade para a esfera do Direito, no entanto, nos confrontamos com outro conceito, freqüentemente utilizado para determinar ações que se relacionam com a propriedade: a posse. Cabe então uma interrogação: qual é a relação do direito de posse com a propriedade?
A discussão acerca da posse como um direito jurídico nos remete a uma complexidade intrínseca à sua definição conceitual. Segundo Savigny a posse independe da propriedade e sua centralidade está no possuidor. Para Jhering, o que fundamenta o direito de posse é a propriedade privada, contrariando Savigny e apresentando uma abordagem mais progressista da questão. Analisando a etimologia da palavra posse (no latim) essa confere a caracterização de domínio, assenhoramento, dominação e apropriação. Com o decorrer do tempo, o Direito desenvolveu várias compreensões acerca do termo. No Direito germânico medieval, por exemplo, a posse consistia no domínio sobre algo, como sendo um direito real, não sendo admitida a violação da posse sem que, com isso, estivesse pressuposta a violação da propriedade. O Direito romano, por sua vez, separou a posse da propriedade. O Direito Canônico também teve sua participação na construção de um entendimento do conceito de posse, ampliando o campo da aplicação possessória, estendendo-a aos direitos pessoais e “espiritualizando” a posse.
No debate atual cabe a reflexão sobre a manifestação da ideologia nas ações jurídicas acerca da posse e até que ponto isso é negativo ou positivo. Para evitar o reforço à estrutura sócio-econômica de opressão social, a única alternativa viável é romper com a lógica positivista do Direito. No entanto, como parece inevitável a presença da ideologia, também no Direito (já que não há neutralidade entre sujeitos e toda interpretação é subjetiva), é importante pautar o quanto o progresso permanece possível diante do que está dado como lei. Portanto, a pretensão é meramente seguir a lei, para que ela seja cumprida, ou, ao interpretá-la, construir novos sentidos para sua aplicação que podem contribuir para a constituição de leis mais progressistas, estando a sociedade ciente do que elas significam?
O jurista, certamente, tem uma participação importante no estabelecimento de uma lei, a ponto de participar da responsabilidade na sua futura interpretação, alteração ou permanência. Por isso, a consciência da presença da ideologia e a exigência da crítica constante dos elementos fundantes da posse e da propriedade são decisivos na atuação jurídica, de forma que os efeitos da interpretação e da aplicação de leis possam se dar com vistas a uma maior mobilização, organização e participação da sociedade civil. Caso contrário, o Direito permanece conservado como mero aparelho ideológico a serviço da manutenção da desigualdade e da injustiça social.
[1] LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo Civil. In: Os Pensadores, 2ª. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
[2] Idem.
[3] Idem, p. 45.
[4] ROUSSEAU, Jean Jaques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. In: Os Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 270.
[2] Idem.
[3] Idem, p. 45.
[4] ROUSSEAU, Jean Jaques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. In: Os Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 270.
ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI , http://www.andrioli.com.br/, Professor do Mestrado em Educação nas Ciências da UNIJUÍ - RS. Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück – Alemanha
Publicado em http://www.espacoacademico.com.br/
sexta-feira, 7 de setembro de 2007
Jerónimo de Sousa e a Revolução de Outubro

Jerónimo de Sousa foi entrevistado pelo Jornal Público, no dia em que começa uma nova edição da Festa do Avante – uma das maiores manifestações culturais de Portugal e onde se celebrará a Revolução de Outubro.
O Secretário-geral do PCP valoriza as conquistas da revolução. É justa que assim seja. As conquistas revolucionárias foram pioneiras em todo o mundo e um grande avanço civilizacional. A Revolução de Outubro abriu ainda um manancial de esperança que se propagou exponencialmente pelo mundo.
Mas celebrar as conquistas revolucionárias também é resgatar a filosofia e a alternativa de socialista face ao capitalismo. E isso fica sem saída se não declararmos o espírito aberto para a reflexão sobre o que é que correu mal – em verdade, o socialismo caiu.
A persistência no dogmatismo, na negação de evidências como a fusão entre o partido e o Estado, a imposição do partido único – apesar das diferenciações sociais e de classe, o abandono da democracia popular e a sua substituição pela ditadura dos chefes e pelo Estado policial, a criação e o crescimento de uma nova burguesia, guerreira e opressora, a falência da economia ou o desastre ambiental não se coadunam com os princípios marxistas. E desarma-nos para declararmos como hoje a China é um dos expoentes maiores do capitalismo selvagem.
Transformar o ideal comunista numa fé parece-me contraditório com o materialismo histórico e dialéctico. É coisa que não bate certo.
Mas aqui fica a nota.
Extracto da entrevista de Jerónimo de Sousa:
A Festa do Avante! comemora este ano os 90 anos da revolução soviética. O PCP continua a celebrar a URSS?
Noventa anos da Revolução de Outubro, nós continuamos a celebrar um momento histórico em que o ser humano ousou tocar o céu, procurando libertar-se do regime brutal czarista que trazia um povo inteiro na miséria e na opressão. Foi um acto heróico mas também a resposta a uma necessidade objectiva no plano do desenvolvimento social. A obra realizada por essa revolução, a intervenção dos trabalhadores, a ideia de um país atrasado que chegou a ocupar lugares primaciais no concerto das nações, uma revolução que foi capaz de ter um papel decisivo na derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial, os direitos adquiridos pelos trabalhadores: continua a fazer sentido comemorar a Revolução de Outubro e todas as mudanças sociais que se operaram, tanto na União Soviética, como nos países ocidentais próximos, que sentiram necessidade de reconhecer direitos aos seus trabalhadores. Se há alguma lição a tirar, verifica-se que, após a destruição da URSS, houve como um acerto de contas, em muitos países, para recuperar parcelas do domínio perdido, particularmente dos direitos dos trabalhadores.
Acha que o avanço do neoliberalismo é uma consequência do fim da URSS?
Não é uma consequência, mas há mais condições para [o neoliberalismo] avançar, por haver uma correlação de forças profundamente desfavorável aos trabalhadores e aos povos, para recuperar essa parcela perdida no plano dos direitos, dos salários, dos horários. Há aqui uma tentativa de recuperação, em resultado dessa correlação de forças, por desaparecimento do pólo que condicionava o socialismo nesses países.
O Secretário-geral do PCP valoriza as conquistas da revolução. É justa que assim seja. As conquistas revolucionárias foram pioneiras em todo o mundo e um grande avanço civilizacional. A Revolução de Outubro abriu ainda um manancial de esperança que se propagou exponencialmente pelo mundo.
Mas celebrar as conquistas revolucionárias também é resgatar a filosofia e a alternativa de socialista face ao capitalismo. E isso fica sem saída se não declararmos o espírito aberto para a reflexão sobre o que é que correu mal – em verdade, o socialismo caiu.
A persistência no dogmatismo, na negação de evidências como a fusão entre o partido e o Estado, a imposição do partido único – apesar das diferenciações sociais e de classe, o abandono da democracia popular e a sua substituição pela ditadura dos chefes e pelo Estado policial, a criação e o crescimento de uma nova burguesia, guerreira e opressora, a falência da economia ou o desastre ambiental não se coadunam com os princípios marxistas. E desarma-nos para declararmos como hoje a China é um dos expoentes maiores do capitalismo selvagem.
Transformar o ideal comunista numa fé parece-me contraditório com o materialismo histórico e dialéctico. É coisa que não bate certo.
Mas aqui fica a nota.
Extracto da entrevista de Jerónimo de Sousa:
A Festa do Avante! comemora este ano os 90 anos da revolução soviética. O PCP continua a celebrar a URSS?
Noventa anos da Revolução de Outubro, nós continuamos a celebrar um momento histórico em que o ser humano ousou tocar o céu, procurando libertar-se do regime brutal czarista que trazia um povo inteiro na miséria e na opressão. Foi um acto heróico mas também a resposta a uma necessidade objectiva no plano do desenvolvimento social. A obra realizada por essa revolução, a intervenção dos trabalhadores, a ideia de um país atrasado que chegou a ocupar lugares primaciais no concerto das nações, uma revolução que foi capaz de ter um papel decisivo na derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial, os direitos adquiridos pelos trabalhadores: continua a fazer sentido comemorar a Revolução de Outubro e todas as mudanças sociais que se operaram, tanto na União Soviética, como nos países ocidentais próximos, que sentiram necessidade de reconhecer direitos aos seus trabalhadores. Se há alguma lição a tirar, verifica-se que, após a destruição da URSS, houve como um acerto de contas, em muitos países, para recuperar parcelas do domínio perdido, particularmente dos direitos dos trabalhadores.
Acha que o avanço do neoliberalismo é uma consequência do fim da URSS?
Não é uma consequência, mas há mais condições para [o neoliberalismo] avançar, por haver uma correlação de forças profundamente desfavorável aos trabalhadores e aos povos, para recuperar essa parcela perdida no plano dos direitos, dos salários, dos horários. Há aqui uma tentativa de recuperação, em resultado dessa correlação de forças, por desaparecimento do pólo que condicionava o socialismo nesses países.
quarta-feira, 5 de setembro de 2007
EDP e REN, não há vergonha na cara

Os senhores da administração da REN e da EDP retiraram o acesso gratuito dos reformados da EDP e REN aos refeitórios. A moral destes senhores e que não há igualdade entre os reformados, pois os da província não têm refeitórios onde ir comer gratuitamente. Na linha do PS a igualdade para estes senhores é tirar a todos.
Outra saída seria atribuir um subsídio de refeição (+- 5 €) aos reformados que não têm acesso aos refeitórios – claro que isso seria muito caro para empresas tão pobrezinhas e de lucros tão insignificantes.
É simplesmente revoltante ver senhores como o “camarada” José Penedos, presidente da REN ganhar 272.658 € anuais, ter um subsídio de refeição de 2.238 € e como é muito pobrezinho o “camarada” recebe ainda umas despesas de representação de 8.529 €. Quando se reformar terá um pequeno complemento de reforma de 45.443 €. Assim este “camarada” já terá dinheiro suficiente para não precisar almoçar no refeitório e não se juntar com a escumalha trabalhadora.
Outra saída seria atribuir um subsídio de refeição (+- 5 €) aos reformados que não têm acesso aos refeitórios – claro que isso seria muito caro para empresas tão pobrezinhas e de lucros tão insignificantes.
É simplesmente revoltante ver senhores como o “camarada” José Penedos, presidente da REN ganhar 272.658 € anuais, ter um subsídio de refeição de 2.238 € e como é muito pobrezinho o “camarada” recebe ainda umas despesas de representação de 8.529 €. Quando se reformar terá um pequeno complemento de reforma de 45.443 €. Assim este “camarada” já terá dinheiro suficiente para não precisar almoçar no refeitório e não se juntar com a escumalha trabalhadora.
sábado, 1 de setembro de 2007
Luta contra a precariedade dos enfermeiros
A luta dos enfermeiros é uma luta que interessa a todos os cidadãos pois é uma luta pelo serviço público de saúde. Leia www.sep.org.pt.
sexta-feira, 31 de agosto de 2007
O PT no Brasil versus o PS em Portugal

SONETO DA DESCULPA ESFARRAPADA [1132]
Partido que se dizia melhor
que os outros, mas que aos mesmos já se iguala,
na prática e nas petas que propala,
revela-se, no fundo, até pior.
Dos outros já sabíamos de cor
que a lábia, a falcatrua, a grana em mala,
juntavam todos numa mesma vala
comum, desde os maiores ao menor.
Mas quando companheiros de jornada
utópica e ideológica se passam,
sem pejo, para o lado da cambada,
agravam-se os motivos que os desgraçam!
Se vis "fins" justificam "meios", nada
nos resta! Só de bobos não nos façam!
Glauco Mattoso é poeta, letrista e ensaísta.
retirado de http://sites.uol.com.br/glaucomattoso
quinta-feira, 30 de agosto de 2007
Novas fotos de Pearl Harbor
Recebemos, por e-mail, a notícia de que foram encontradas novas fotos do bombardeamento em Pearl Harbor, 7 de dezembro de 1941, no início da 2ª Guerra Mundial.
"As fotos estavam armazenadas numa velha camera Brownie, desde 1941 e foram encontradas no armário de um marinheiro que serviu no USS Quapaw.
A qualidade das fotos é surpreendente e o valor histórico inestimável pois foram tiradas durante o ataque a Pearl Harbor".
Leia aqui o que diz a Wikipedia sobre este ataque.











"As fotos estavam armazenadas numa velha camera Brownie, desde 1941 e foram encontradas no armário de um marinheiro que serviu no USS Quapaw.
A qualidade das fotos é surpreendente e o valor histórico inestimável pois foram tiradas durante o ataque a Pearl Harbor".
Leia aqui o que diz a Wikipedia sobre este ataque.











segunda-feira, 27 de agosto de 2007
Um novo impulso à paz

O Procurador-Geral dos Estados Unidos (attorney general) Alberto Gonzales renunciou ao cargo.
Tal notícia segue a outras que indicam que os ratos estão a saltar fora do navio; na previsão de que este se vai afundar nas próximas presidências norte-americanas.
Mas também indicam o crescente descrédito e falência da política Bush e do centro do império. A derrota política, militar e ideológica dos EUA no Iraque está a aprofundar a onda de deserções, que chegam ao seu muito querido Reino Unido.
A recente morte do segundo de três irmãos, que combatiam no Iraque, mediatizou ainda mais o desastre da política imperial. Em todo o mundo, milhões e milhões de pessoas souberam de uma morte que pesou mais ainda no apelo à retirada das forças ocupacionistas.
Quando o centro do império atravessa as maiores dificuldades dos últimos anos é o momento para aumentar a pressão pela paz. Um novo impulso pela paz é preciso.
sábado, 25 de agosto de 2007
Imperialismo: ele ainda existe?

WALDIR JOSÉ RAMPINELLI
Professor do Departamento de História da Universidade Federal de Santa Catarina
O debate sobre o imperialismo e a luta de classes, abandonado por uma parte da esquerda e desterrado pela maioria dos pós-modernos, sempre esteve presente na vida dos povos latino-americanos. Na América Central, no Caribe e no México, onde o imperialismo se manifestou de forma mais atuante e visível, os movimentos revolucionários não apenas tomaram em armas, mas também apresentaram um projeto nacional para se contrapor ao Estado imperial. Essa luta começou no final do século XIX e início do XX, com José Martí, em Cuba, que denunciou a ideologia colonizadora do pan-americanismo; passou por Emiliano Zapata e Francisco Villa, que expropriaram terras de estadunidenses em território mexicano para fazer suas reformas agrárias durante a Revolução de 1910; continuou com Augusto C. Sandino, que lutou contra a ocupação estrangeira para construir um Estado nacional na Nicarágua; e chegou a Che Guevara, que defendeu a tese da criação do segundo e do terceiro Vietnã para derrotar militarmente o imperialismo.
Hoje, líderes nacionalistas de esquerda começam a ganhar as eleições em vários países da América Latina, fazendo-o sobre os escombros das políticas neoliberais aplicadas a partir de meados dos anos 1970. Venezuela, Bolívia, Equador, Nicarágua e a própria Argentina são os exemplos mais conhecidos. Todos estes governos têm implementado, em menor ou maior grau, um projeto nacional de esquerda que se opõe frontalmente ao imperialismo. O Documento de Santa Fé II (1988), que orientou a política externa do Departamento de Estado estadunidense, afirmava que “o matrimônio do comunismo com o nacionalismo, na América Latina, representava o maior perigo para a região e para os interesses dos Estados Unidos”.
Acaba de ser lançado, pela Editora da Universidade Federal de Santa Catarina, o livro do cientista político estadunidense James Petras sob o título Imperialismo e luta de classes no mundo contemporâneo. O autor analisa temas como a base econômica do poder imperial, o realinhamento de governos latino-americanos a Washington, a ALCA e sua pedagogia para a opressão, a conexão EUA-Iraque-Israel e o sionismo, as políticas antiimperialistas com suas diversas formas de luta e, por último, o grande debate revisitado capitalismo versus socialismo.
Para Petras, as empresas multinacionais são um dos eixos que fundamentam o poder econômico do imperialismo. Os EUA continuam sendo dominantes em termos absolutos e relativos: contam com 227 (45%) das 500 multinacionais mais importantes, seguidos pela Europa Ocidental, com 141 (28%), e Ásia, com 92 (18%). Esses três blocos regionais controlam 91% das principais multinacionais do mundo (p. 12). A dita globalização, para o autor, pode ser entendida em seu sentido mais amplo como o poder derivado de tais empresas com sede nos três blocos citados, o que lhes permite movimentar capitais e controlar o comércio, o crédito e o financiamento.
Cabe ressaltar que as multinacionais estadunidenses ocupam os primeiros lugares na lista das indústrias militares relacionadas com a guerra e a construção de seu império. Isso significa que a corrida armamentista vem potencializando sua expansão industrial nas últimas seis décadas, permitindo aos EUA sair da grande depressão dos anos 1930, em detrimento das atividades industriais. Fred Halliday denominou “triângulo de ferro” à conexão entre o Congresso, o Pentágono e o complexo industrial-militar destinado a aumentar os gastos com a defesa.
Os EUA e a Europa são dois Estados imperiais que se diferenciam apenas no método de dominação e exploração. Enquanto o imperialismo europeu adota uma estratégia diplomática de “comércio-investimento-mercado”, os EUA utilizam a via colonial militarista; enquanto Bruxelas propõe um estilo de controle multilateral, consultivo e de cooperação, Washington lança mão da ação unilateral e do monopólio do poder; enquanto a Europa busca estabelecer uma cooperação com as elites dos países árabes e com Israel, Washington – influenciado pelos sionistas – prioriza uma relação apenas com Tel Aviv.
Ao analisar a Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), Petras mostra que esta organização “proporciona ao imperialismo estadunidense um amparo legal e de tomada de decisões para determinar o comércio, os investimentos, as políticas sobre a propriedade e a legislação trabalhista, bem como a natureza, o gasto, a forma e o conteúdo dos sistemas de saúde e educação” (p. 71). Isso estabelece um novo sistema político, assim como a base legal para o controle de toda a estrutura socioeconômica da América Latina.
Petras também discute o uso da educação pela ALCA como um mecanismo de transição do neoliberalismo ao colonialismo. O exemplo mais visível é a interferência do Banco Mundial em favor de um maior profissionalismo, e contra a ideologia, nos programas educacionais. Na verdade, o que o Banco Mundial promove é uma ideologia pró-imperial que prepara tecnocratas para servirem as empresas multinacionais em oposição a toda idéia nacionalista.
O tema central do livro, no entanto, é o relato feito por James Petras e Robin Eastman-Abaya sobre a conexão EUA-Iraque-Israel e o sionismo. Os analistas de política internacional costumam afirmar que o apoio estratégico-militar de Washington a Tel Aviv é fundamental na manutenção de um Estado forte, belicoso e expansionista. A doutrina Nixon-Kissinger, ao reconhecer que os EUA “não poderiam mais fazer o papel de policial do mundo” e que, portanto, “esperariam que outras nações fornecessem mais guardas para a ronda de sua própria vizinhança”, atribuiu a Israel, bem como a outros países, entre eles o próprio Brasil, a função de atores regionais. Dentro desta perspectiva estratégica, tanto Israel como o Brasil desempenharam uma função subimperialista em suas áreas de influência. Hoje, porém, segundo Petras e Eastaman-Abaya, é Israel que, por meio de sionistas estadunidenses importantes, detém o poder dentro dos EUA. A Casa Branca chega a adotar políticas altamente prejudiciais aos seus interesses, somente com o intuito de beneficiar a Tel Aviv. Um exemplo é a guerra contra o Iraque, cujo principal beneficiário é o Estado de Israel, já que conseguiu a destruição de seu inimigo árabe mais forte no Oriente Médio, ou seja, o regime que dava apoio à resistência palestina.
Poucos são os analistas políticos que mostram “a excessiva influência” que os governos israelenses exercem sobre os EUA, por meio de poderosos grupos de pressão e indivíduos sionistas nos setores estratégicos de sua economia, como também no Poder Executivo, no Congresso, nos partidos políticos, na mídia e no sistema financeiro. Os mais conhecidos sionistas, segundo Petras e Eastaman-Abaya, são Alan Greenspan (ex-diretor do Banco Central), Paul Wolfowitz (ex-diretor do Banco Mundial), Richard Perle (Defense Policy Board), Douglas Feith (secretário de Defesa Adjunto), David Frum (redator dos discursos de Bush), Elliot Abrams (encarregado da Política para o Oriente Médio) e tantos outros. Petras e Eastman-Abaya analisam, então, vários casos pontuais em que os interesses dos EUA foram prejudicados para favorecer Israel (p. 115-120). O mais recente, e de uma enorme gravidade, diz respeito às Torres Gêmeas, já que os investigadores federais estadunidenses têm razões para acreditar que o serviço de inteligência israelense sabia do ataque de 11 de Setembro e não comunicou Washington porque a Tel Aviv interessava a guerra como justificativa para destruir seus inimigos árabes. Para ambos os autores, esta influência exercida por Israel está baseada na diáspora e nas redes judaicas muito bem estruturadas, que têm acesso direto aos centros de poder e propaganda do país imperial mais poderoso do mundo. A relação EUA-Israel é a primeira da história moderna na qual um país acoberta crimes praticados por terceiros contra si próprio.
Imperialismo e luta de classes também analisa as políticas antiimperialistas e sua forma de resistência ao longo do tempo. Se no período da Guerra Fria os movimentos antiimperialistas eram rotulados de conflitos entre blocos (socialismo versus capitalismo ou Terceiro Mundo contra Primeiro Mundo), hoje eles têm uma conotação de exploração de classes. Além disso, a política econômica imposta pelas autodenominadas instituições financeiras internacionais (Fundo Monetário Internacional, Banco Mundial, Banco Interamericano de Desenvolvimento) contribuiu decisivamente para a transformação da estrutura de classe. A execução seletiva da política de “livre comércio” tem sido determinante na reestruturação da estrutura de classes urbana e rural. Isso torna a luta mais ampla e profunda.
Petras mostra como o imperialismo causou grandes problemas no campo, tais como o enfraquecimento de pequenos e médios produtores agrícolas pela política de “livre comércio” que permite a afluência massiva das exportações agrícolas estadunidenses subsidiadas; a concentração da propriedade, assim como o deslocamento de agricultores de subsistência e sem terra, por meio de empréstimos e ajuda a empresas agro-exportadoras que se especializaram na produção de produtos de exportação, como soja, café e suco de laranja; o aumento da polarização por extinguir as restrições sobre a propriedade estrangeira e acabar com a propriedade comunal da terra, estimulando a estratificação interna; e, finalmente, a queda de preços para produtores locais (p. 175-176).
Não se pode esquecer que o imperialismo também transformou a natureza do Estado por meio da intervenção militar, da chantagem econômica, dos golpes de Estado e dos processos eleitorais corruptos, ou seja, a manipulação de eleições com a ajuda dos meios de comunicação de massa.
O Iraque, juntamente com a América Latina, são os lugares em que se verificam os maiores descontentamentos populares com a pilhagem do imperialismo e, concomitantemente, com a queda no nível de vida das pessoas. Os atores deste movimento são, em sua grande maioria, trabalhadores pobres urbanos e rurais, estudantes de classe média baixa, professores, religiosos, movimentos sociais radicais, grupos indígenas e organizações guerrilheiras e estão baseados nos impactos negativos diretos sobre o nível de vida, empregos, produção agrícola e controle da política econômica.
James Petras finaliza seu livro analisando o grande debate que permeou todo o século XX e continua presente nos dias de hoje: capitalismo versus socialismo. O autor mostra que as decisões econômicas, assim como as propriedades nacionais, eram de domínio público no socialismo. Com o colapso deste sistema, as empresas multinacionais estadunidenses e européias se apropriaram de todas as riquezas dos ex-países comunistas. Isso tem gerado desemprego em massa, emprego temporário e uma grande emigração para outras partes do mundo.
Na Polônia, os antigos estaleiros de Gdansk (onde nasceu o Sindicato Solidariedade) foram fechados e agora são uma peça de museu. Na Rússia, a economia foi privatizada e oito oligarcas multimilionários enviaram para os bancos de Nova York, Tel Aviv, Londres e Suíça mais de duzentos bilhões de dólares. Os principais beneficiários do fim da URSS foram os antigos burocratas soviéticos, os chefões da máfia, os bancos estadunidenses e israelenses, os especuladores imobiliários europeus, os construtores do império de Washington, os militaristas e as empresas multinacionais.
Por fim, Petras compara o agora socialismo cubano com os novos países capitalistas surgidos no Leste europeu e Ásia meridional e chega a conclusões, com base em dados econômicos, de que o “socialismo reformado” de Cuba, apesar do embargo imposto à Ilha pelos EUA e da crise dos anos 1990, é superior, no índice de desenvolvimento humano, aos países que transitaram para o capitalismo com o fim da União Soviética.
Imperialismo e luta de classes no mundo contemporâneo é um livro polêmico, atual e instigante, que por certo deverá suscitar muitos debates e, por que não dizer, paixões também.
publicado em espacoacademico.com.br
PETRAS, James. Imperialismo e luta de classes no mundo contemporâneo. tradução de Eleonora Frenkel Barretto. Florianópolis: Editora da UFSC, 2007, 206 p. (Coleção Relações Internacionais e Estado Nacional – RIEN)
sexta-feira, 24 de agosto de 2007
OS DESAFIOS DA REVOLUÇÃO CUBANA

uma visão de James Petras e Robin Eastman-Abaya publicado em rebelion.org
(artigo longo mas interessante)
Traducido por Manuel Talens y Germán Leyens. Revisado por Juan Vivanco.
Introducción
La Revolución cubana y su economía socialista han demostrado una tremenda resistencia ante enormes obstáculos y retos políticos. Cuba ha desafiado con éxito una invasión orquestada por EEUU, un bloqueo marítimo, cientos de ataques terroristas y medio siglo de bloqueo [1]. Cuba pudo sortear el bajón de la caída de la URSS y los regímenes colectivistas de la Europa del Este, el tránsito de China e Indochina al capitalismo y, al mismo tiempo, logró formular un nuevo modelo de desarrollo.
Tal como han señalado numerosos eruditos y dirigentes políticos -adversarios incluidos-, Cuba ha desarrollado un sistema muy avanzado de bienestar social, que funciona: cuidados sanitarios y educación universales y gratuitos desde la guardería infantil hasta la universidad [2].
En política exterior y nacional, Cuba ha establecido con éxito relaciones económicas y diplomáticas en todo el globo, y ello a pesar de los bloqueos y las presiones de EEUU [3].
En cuestiones de seguridad nacional y personal, Cuba es un líder mundial. Las tasas de criminalidad son bajas y la violencia infrecuente. Las amenazas y los actos terroristas (la mayoría en proveniencia de EEUU y de sus socios del exilio cubano), han disminuido y son menos peligrosos para la población cubana que en EEUU o Europa.
Son precisamente los éxitos de la Revolución cubana, su habilidad para sobrellevar las amenazas externas -que habrían derrotado a la mayoría de los gobiernos- los que han creado ahora una serie de importantes desafíos, que requieren atención urgente para que la revolución, tal como la conocemos, pueda adentrarse en el siglo XXI. Estos desafíos se deben tanto a las restricciones externas anteriores como a los acontecimientos políticos internos. Algunos problemas eran consecuencias inevitables de las medidas de emergencia, pero ahora exigen soluciones inmediatas y radicales.
Virtudes revolucionarias
La gran virtud de la Revolución cubana es haber sobrevivido manteniendo muchos de sus logros sociales positivos, cuando muchos regímenes reformistas o revolucionarios, anteriores y posteriores, cayeron en las urnas, fueron derrocados o se desplomaron por sí mismos. EEUU y sus aliados derrocaron los regímenes reformistas de Arbenz en Guatemala (1954), de Mossadegh en Irán (1953), de Allende en Chile (1973), de Lumumba en el Congo y otros muchos. La Casa Blanca hizo caer el gobierno sandinista de Nicaragua en 1989, el régimen de Aristide en 1992 y 2004 y otros muchos. Por el contrario, Cuba derrotó una invasión patrocinada por EEUU en 1961, resistió un bloqueo marítimo estadounidense en 1962, desactivó centenares de intentos de asesinato y ataques terroristas organizados por la CIA durante medio siglo e incluso pasó a través de un bloqueo económico mundial [4].
Gracias a una astuta diplomacia, Cuba se aseguró un favorable y oportuno comercio y contratos de ayuda con la antigua URSS y la Europa del Este. A finales del pasado siglo XX, Cuba tenía relaciones diplomáticas y económicas con casi el mundo entero, y ello a pesar del bloqueo de EEUU. En 2001 Cuba rompió incluso el embargo comercial al importar alimentos y medicinas de exportadores y agricultores estadounidenses, si bien en condiciones unilaterales desfavorables.
El repentino colapso de la URSS y la conversión de Rusia y la Europa del Este en colonias capitalistas occidentales fueron un golpe devastador para la economía cubana. La pérdida de socios comerciales dio lugar a un declive repentino de la producción. La transición al capitalismo en China e Indochina le brindó pocas alternativas. El gobierno cubano adoptó una estrategia económica de emergencia inaugurando un “período especial” de austeridad forzosa y ajuste estructural que difuminó el dolor del reajuste económico en toda la sociedad cubana, a diferencia de lo ocurrido en los países capitalistas. Entre 1990 y 2000 Cuba reconstruyó su economía para cubrir las nuevas exigencias de la economía mundial, y al mismo tiempo conservó su red de protección social, lo cual fue una hazaña sin precedentes.
La recuperación de Cuba se basó en diversos ejes de nuevo cuño: el desarrollo rápido y exhaustivo del sector turístico mediante grandes inversiones a largo plazo en asociación con multinacionales europeas y latinoamericanas; enormes inversiones en biotecnología para estimular la investigación y desarrollo de exportaciones farmacéuticas; acuerdos comerciales y contratos de inversión a largo plazo con Venezuela, mediante los cuales Cuba intercambia en condiciones favorables equipos médicos y servicios por productos del petróleo; asociación de empresas en participación para desarrollar la exportación de níquel, ron, tabaco y productos cítricos; y contratos de importación de alimentos con agroempresas de EEUU y Canadá [5]. Los cubanos cerraron la mayor parte de sus fábricas azucareras y redujeron la producción de azúcar, reconvirtiendo bruscamente los campos de caña para la producción de cosechas alternativas a escala limitada.
Continuaron las inversiones importantes en nuevas escuelas avanzadas de informática (200 millones de dólares) [6], en el turismo médico y en los proyectos humanitarios externos. Esta estrategia económica, combinada con condiciones externas favorables (precios mundiales elevados de productos primarios, la radicalización del presidente venezolano Hugo Chávez, los cambios en los regímenes liberales de América Latina desde la extrema derecha al centro derecha neoliberal) y el sacrificio voluntario de la mayoría del pueblo cubano, condujo a una recuperación económica gradual, pero firme, a partir de 1994, seguida de un crecimiento acelerado desde 2003 [7].
Tanto en la profunda depresión económica como tras la recuperación, el gobierno cubano mantuvo la estructura básica social y las provisiones de asistencia. Todos los programas sanitarios y educativos de importancia continuaron siendo gratuitos y abiertos al público. Los trabajadores desplazados por la reestructuración económica siguieron recibiendo sus salarios y se les ofrecieron trabajos estatales subvencionados y programas de formación en otras disciplinas. Los alquileres y los costos de las empresas de servicios públicos siguieron siendo bajos. Se siguieron pagando las pensiones. Continuaron los subsidios de la alimentación y el racionamiento de artículos básicos. Las actividades culturales, deportivas y recreativas avanzaron a pesar de los bruscos recortes en su subvención. A pesar de las carencias generales y las privaciones sociales, las tasas de criminalidad permanecieron muy por debajo de los porcentajes latinoamericanos y de EEUU.
Las instituciones nacionales de seguridad protegieron con éxito al público cubano de los ataques terroristas apoyados por EEUU y de los esfuerzos internos de desestabilización patrocinados por las organizaciones “disidentes” financiadas por la Casa Blanca [8]. A pesar de su mayor vulnerabilidad económica, Cuba rechazó las presiones de EEUU y la Unión Europea para dictarle su seguridad nacional y sus políticas económicas [9]. La Habana rechazó el intento de Washington de convertir a Cuba en un satélite del libre mercado similar a los ejemplos de la Europa del Este, el Cáucaso y Rusia, y siguió su propio modelo político y económico independiente.
A diferencia de los antiguos países comunistas de la URSS, Europa del Este y Asia, la transición hacia la nueva economía de Cuba no dio lugar a las monstruosas desigualdades en las que un diminuto grupo de multimillonarios y archimillonarios se apoderaron del control de los bienes y recursos públicos, mientras que el resto de la población permaneció pobre y desempleada, con alquileres prohibitivos, la sanidad y la educación desnacionalizadas e inaccesibles y pensiones miserables [10]. Igualmente, Cuba conservó la mayoría de las acciones y el control de las empresas en participación con capital extranjero [11], en contraste con las adquisiciones estadounidenses y europeas de casi todos (si no todos) los sectores de fabricación, financieros, mediáticos y comerciales de Europa del Este.
Incluso más digno de atención es que, a diferencia de Europa del Este y la antigua URSS, Cuba no sufrió la transferencia masiva al exterior de beneficios, alquileres e ingresos ilegales de redes de prostitución, narcotráfico y venta de armas. Tampoco la transición de Cuba a una economía mixta se vio acompañada de sindicatos del crimen organizado, que tuvieron un papel tan importante en los resultados electorales de Bulgaria, Polonia, Rumania, Albania y el resto de las nuevas democracias capitalistas [12].
El enorme éxito de Cuba para pasar por encima de obstáculos históricos que se oponían a su supervivencia, su sorprendente recuperación económica y su formidable fuerza de defensa nacional son en gran medida atribuibles a la combinación de perseverancia popular, lealtad a sus líderes revolucionarios y adopción de valores comunes de igualitarismo, solidaridad, dignidad nacional e independencia. Sin embargo, el propio éxito del gobierno cubano al enfrentarse y superar los obstáculos resultantes del bloqueo de EEUU y del colapso de la URSS ha creado un nuevo tipo de desafíos y contradicciones.
Contradicciones y desafíos tras el “período especial”
La promoción del turismo como eje de la recuperación económica fue el uso más rápido, fácil y racional del clima natural de Cuba para compensar la depresión económica, la falta de capital y el aislamiento político. Además, fue el sector que más interesó a los futuros socios inversionistas extranjeros. El turismo generó divisas fuertes para importar productos primarios esenciales, especialmente petróleo y productos manufacturados, material sanitario y alimentos.
Sin embargo, al cabo del tiempo el turismo dio lugar a distorsiones muy importantes en la economía: los salarios de los empleos de poca o ninguna calificación relacionados con el turismo excedieron con mucho a los de científicos de elevada formación, médicos, trabajadores calificados y trabajadores agrícolas entre otros. Además, las “empresas mixtas” en el sector del turismo llevaron a la creación de una nueva burguesía burocrática rica y al auge de las desigualdades [13]. Igual de perjudicial, la entrada masiva de turistas resultó en el crecimiento de un lumpenproletariado, prostitutas, narcotraficantes y otras formas de pícaros no productivos cuyos ingresos ilícitos excedían a los de trabajadores, empleados y profesionales. Este grupo desarrolló redes con hoteles, restaurantes y gerentes de clubs nocturnos, que apoyaron la corrupción y pusieron a prueba los valores revolucionarios. Las carencias continuas, el bajo poder adquisitivo y la falta de bienes de consumo deseables restaron fuerza a las campañas del gobierno para “moralizar” la actividad turística sin alejar a los turistas.
Las inversiones a gran escala y a largo plazo en infraestructuras turísticas -hoteles, restaurantes, muebles importados y alimentos- desviaron reservas de la agricultura: la producción agropecuaria, en especial la de productos alimenticios, declinó significativamente y sobre todo su disponibilidad para la población local, lo cual facilitó los mercados negro, gris y “libre”. Cuba se convirtió en un país dependiente de alimentos del exterior [14]. Mientras que el turismo atraía divisas fuertes, se gastaban cientos de millones en importar alimentos de EEUU, Canadá, Argentina, la República Dominicana y otras partes. La dependencia alimentaria de EEUU incrementó la vulnerabilidad de Cuba ante cualquier endurecimiento del embargo a la exportación. Podría decirse que la seguridad nacional cubana quedó debilitada por el hecho de que Cuba pagase con moneda fuerte por adelantado una proporción creciente de importaciones de alimentos de ese país, tal como requiere el Departamento del Tesoro de EEUU.
Algunos comentaristas políticos de dentro y fuera de Cuba han señalado que los agricultores, el negocio de la agroalimentación y los políticos estadounidenses (de más de treinta estados) implicados en el comercio con Cuba son un potente grupo de presión capaz de presionar para el fin del bloqueo de la Casa Blanca. Los precedentes apuntan a lo contrario. La década pasada, bajo los presidentes Clinton y Bush, no mostró progreso alguno en el fin de la presión estadounidense sobre Cuba. Al contrario, conforme aumentaban las importaciones cubanas procedentes de EEUU, el Congreso de ese país imponía leyes restrictivas sobre los viajes y los envíos de dinero, añadiendo a la lista negra empresas de terceros países y financiando campañas de desestabilización y propaganda a través de la Casa Blanca.
El turismo, que sirvió como estrategia inmediata y necesaria en el período especial, por desgracia se ha convertido en un sector de crecimiento intrínseco y estratégico para la economía. Cuba sigue fiel a su tradicional ciclo de dependencia del “monocultivo” tras haber sustituido la exportación de azúcar a EEUU y luego a la URSS y a la Europa del Este por el turismo para canadienses y europeos. El problema con la nueva dependencia (como con la anterior) es que ofrecen soluciones a “corto plazo” mientras que a largo plazo empeoran los problemas estructurales, entre ellos una mala distribución de los recursos humanos (hay arquitectos que trabajan como botones de hotel) y la ausencia de una economía diversificada capaz de enfrentarse a los inevitables ciclos económicos endémicos del mercado capitalista mundial.
La cada vez mayor dependencia de alimentos de Cuba se está agudizando, como bien lo refleja el aumento de la importación de arroz, frijoles, carne de ave, cerdo, carne de res y otros elementos esenciales (incluso, a veces, el azúcar) en la dieta cubana. En su discurso del 26 de julio de 2007, Raúl Castro destacó el enorme aumento de los precios de los alimentos importados y puso como ejemplos el aumento hasta el triple del coste de la leche en polvo en los tres años anteriores, el incremento del 10% en el precio del arroz molido entre 2006 y 2007 y la duplicación del precio del pollo.
La producción agrícola de Cuba está dirigida en gran medida hacia los mercados turístico y de exportación: el tabaco, los cítricos la fruta tropical, el azúcar (apenas); gran parte de la fruta de calidad, la carne, los productos y la carne de ave se venden en los mercados privados de agricultores, o en las tiendas especiales que comercian en dólares o moneda convertible. Esto hace que haya escasez de productos en las tiendas estatales subsidiadas de los barrios. El desarrollo de “huertos urbanos” ha sido una solución para ciertos vecindarios -pues provee productos orgánicos frescos de calidad- pero no cubren las necesidades de gran parte de la población.
La disminución de la producción de alimentos, especialmente el arroz (Cuba importa más del 75% de su arroz) es notable. Un importante economista cubano nos dijo que se debía a una falta de trabajadores agrícolas deseosos de cultivar arroz -una labor que requiere un esfuerzo intensivo-, al menos mientras se les pague el salario actual, muy inferior al de los empleos en sectores no agrícolas. Cuba, con una baja tasa de natalidad y una población muy educada, carece de trabajadores agrícolas. Sin embargo, por razones poco claras, Cuba rechaza la idea de alentar la inmigración desde países con excedente de trabajadores agrícolas experimentados, como Haití, para reforzar su declinante fuerza laboral en las granjas e incrementar las cosechas de productos nacionales básicos de los que depende su seguridad alimentaria. La dependencia agrícola cubana del capital extranjero, en especial de inversionistas israelíes en el sector cítrico, es también incomprensible -dada la abundancia de agrónomos, operadores agrícolas de extensión y oportunidades de aprender mercadotecnia [15]-. El mercado mundial de los cítricos ha sido especialmente lucrativo para el capital brasileño, por lo menos desde los años sesenta... mientras que Cuba ha entrado en él con retraso y en parte a través del capital extranjero, lo cual hace que los beneficios salgan de la Isla.
Mientras Cuba canalizaba de forma eficaz grandes inversiones de capital hacia el turismo, la biotecnología y otros sectores productivos, ha descuidado su sector de la vivienda, lo cual ha creado una lista de espera de 10 años para más de un millón de familias. El déficit de viviendas es una de las fuentes más importantes del descontento entre el pueblo cubano, incluso entre sus funcionarios de nivel medio del partido y del gobierno, que se ven obligados a vivir con sus parientes. Además, la vivienda actual está en muy mal estado, sobre todo en Centro Habana, donde con un poco de cemento y una mano de pintura barata se podrían revitalizar los vecindarios obreros, ahora gravemente deteriorados.
Aunque el gobierno ha anunciado un programa para construir 100.000 casas y apartamentos por año, dicho programa adolece de mala gestión (demoras burocráticas), robo de materiales de construcción por funcionarios, baja productividad y un suministro inadecuado de materiales [16]. En gran medida, la vivienda no ha gozado de la prioridad que recibió el sector hotelero para turistas durante los pasados años. El énfasis que se puso en la “recuperación económica” durante el período especial ha dado lugar a una falta de énfasis en las necesidades básicas de los consumidores en el sector de vivienda.
La “producción” a corto plazo por encima de las estrategias para los consumidores está dando lugar a problemas a medio y largo plazo. Los demógrafos cubanos han indicado la disminución en la población total de Cuba junto con un envejecimiento de la existente, lo cual disminuye la cantidad de personas disponibles para el trabajo productivo [17]. Según los analistas de población cubanos, los factores socioeconómicos claves que explican la crisis demográfica son la falta de viviendas y el alto costo de la vida (Oficina Nacional de Estadísticas [ONE]). El desarrollo económico, la estabilidad social y la legitimidad política de Cuba exigen que se dé máxima prioridad a la construcción de casas, a la reparación y a la rehabilitación [18].
La baja productividad económica de Cuba, sus “ineficiencias burocráticas”, así como la apatía diaria en el lugar de trabajo son en parte resultado del muy inadecuado sistema de transporte público -de personas y de artículos-, por lo menos en lo relativo al mercado nacional. Largas colas en las paradas de las guaguas, falta de puntualidad, guaguas abarrotadas, camiones “convertidos” en transporte público (los arriñonados “camellos”) y combustibles muy contaminantes han dado lugar a un malestar crónico. La tardanza en el trabajo, debida al inadecuado transporte público, ha contribuido a la baja productividad y, a veces, es una excusa “legítima” para el absentismo. La falta del transporte público puntual mina la moral en el trabajo y en la escuela: si las autoridades públicas son incapaces de disciplina administrativa en algo tan básico como el transporte, ¿cómo pueden hablar a sus empleados de la necesidad de una mayor disciplina en el trabajo? La falta de disciplina de la dirigencia es un mal ejemplo para todos trabajadores.
La reciente compra de mil autobuses a China ha proporcionado algún alivio, pero la excesiva dependencia del auto-stop que tienen los trabajadores atestigua la persistente insuficiencia. Igualmente, las “pérdidas” que se producen durante el transporte de artículos desde los productores a los consumidores han generado una escasez crónica de productos alimenticios, materiales de construcción y petróleo [19]. La corrupción, el robo generalizado, la falta de coordinación y la supervisión inadecuada son en gran parte culpables, así como la ausencia de mecanismos de control político de los consumidores y los trabajadores concienciados. En sectores donde el Estado ha fijado prioridades altas, como el turismo, el níquel y los fármacos, el sistema de transporte funciona de una manera razonablemente eficaz.
El problema del transporte no se debe sólo a una falta de voluntad política. Cuando en noviembre de 2005 Fidel Castro anunció que más del 50% de la gasolina se robaba y se vendía en el mercado negro, quedó claro que la autoridad gubernamental y la vigilancia administrativa no funcionan [20]. Los ministros a cargo de la energía, el transporte y el comercio ni siquiera fueron reprendidos públicamente.
Cuba requiere al menos 10.000 nuevos vehículos de transporte, y eso sólo para empezar. Necesita personal de mantenimiento y personal entrenado, así como comités de vigilancia de consumidores y trabajadores, que aseguren que el nuevo transporte, una vez adquirido, funcione.
La educación sociopolítica, las exhortaciones morales y las citas de dirigentes históricos ejemplares son necesarias para motivar a los trabajadores, pero obviamente inadecuadas en ausencia de salarios y jornales decentes.
En su discurso del 26 de julio de 2007 en Camagüey, Raúl Castro señaló que “Somos conscientes igualmente de que en medio de las extremas dificultades objetivas que enfrentamos, el salario aún es claramente insuficiente para satisfacer todas las necesidades, por lo que prácticamente dejó de cumplir su papel de asegurar el principio socialista de que cada cual aporte según su capacidad y reciba según su trabajo. Ello favoreció manifestaciones de indisciplina social y tolerancia que una vez entronizadas resulta difícil erradicar, incluso cuando desaparecen las causas objetivas que las engendran [21].”
Salarios bajos, débil motivación, falta de disciplina de trabajo y escasa productividad constituyen un ciclo que ha afectado de forma cruel a los servicios, la manufactura y la agricultura y podría ser convertido en un ciclo virtuoso. Durante los tres últimos años, los salarios se descongelaron después de casi dos décadas y se concedieron algunos aumentos relativamente grandes. Pero en comparación con los aumentos en el precio de la electricidad doméstica, los alimentos (buena parte de los cuales deben comprarse en el mercado “libre”), la ropa y otras necesidades indispensables, los aumentos salariales están por debajo de lo necesario para estimular una mayor productividad.
Aunque hace falta aumentar el poder adquisitivo de los consumidores, también debe aumentar la disponibilidad de artículos de consumo a precios competitivos. Los aumentos de salario en situación de escasez llevan a gastar más dinero para comprar menos artículos, y los aumentos informales de los precios erosionan los “aumentos” simbólicos. La economía tiene que equilibrar la mayor producción y las importaciones de bienes de consumo con inversiones en bienes de equipo y producción para mercados de exportación. Las inversiones en instalaciones turísticas tienen que ser equilibradas con inversiones de capital y producción para mercados de exportación. La brecha entre instalaciones lujosas para turistas y el paupérrimo estado de la vivienda de los trabajadores creció enormemente durante el “período especial”. La continuación de la expansión del turismo extranjero durante la década y media de recuperación erosiona los valores socialistas tanto como la desigualdad resultante del robo de recursos públicos. Las desigualdades han aumentado a causa de las “bonificaciones” no oficiales a altos funcionarios que trabajan en empresas con participación extranjera, en el comercio exterior y en la economía del dólar/euro. Una nueva política de la renta puede incentivar la productividad si se combina con la participación directa de todos los trabajadores en la organización y la administración del centro de trabajo, así como con la inauguración de espacios múltiples para discutir sobre la reestructuración de la economía.
La nueva política de la renta debería promover sectores estratégicos de la economía. El crecimiento de la agricultura, la manufactura y los sistemas de información aplicada requieren cambios en la dirección de la política gubernamental y, sobre todo, en sus programas de formación educativa y profesional [22]. Mientras que la mayoría de los países asiáticos y latinoamericanos iban a la zaga de Cuba en los años sesenta, hoy han superado a Cuba en la diversificación de sus economías, el desarrollo de sectores competitivos de fabricación para la exportación y la disminución de su dependencia de un grupo limitado de productos de exportación. Al añadir valor a sus productos, los países asiáticos han incrementado sus ingresos, lo cual ha redundado en salarios más altos y un mejor “ajuste” entre educación avanzada y oportunidades de trabajo. La economía de Cuba se caracteriza por un gran desequilibrio entre un sistema educativo muy desarrollado y una economía de “monocultivo” que no provee los puestos de trabajo apropiados a la universalización de la educación superior. Cuba tiene que ajustar su educación para formar diplomados que gestionen y dirijan las actividades industrial y agrícola con vistas a que éstas produzcan en masa tanto artículos para el consumo popular como científicos para servicios médicos.
Cuba produce y exporta níquel y cítricos –a pesar de la disminución de su valor añadido–, pero el procesamiento y la fabricación de productos terminados se realizan en otros lugares. Cuba produjo durante décadas 5-6 millones de toneladas de azúcar crudo para la exportación; después del fin de la URSS, tuvo que vender a precios de mercado mundial. En comparación, Brasil avanzó en el uso múltiple de la caña de azúcar procesada, especialmente como fuente de energía, mientras Cuba desperdiciaba sus escasas divisas extranjeras importando petróleo y reduciendo así el crecimiento general. Después, Cuba cerró muchos centrales azucareros. Algunos campos de caña se dedicaron a otros productos, pero muchos permanecieron sin cultivar, incluso cuando el precio del etanol subió vertiginosamente y aumentaron las importaciones cubanas de alimentos. Aunque numerosos críticos tienen razón al señalar los efectos negativos del cambio de la producción de alimentos a etanol, no es el caso de Cuba: los campos sin cultivar no producen ni alimentos ni etanol.
El crecimiento económico y la igualdad social se ven fuertemente afectados por la gran cantidad de robos de propiedad pública. Fidel Castro mencionó sólo un ejemplo: la pérdida de un 50% de los beneficios en la distribución de petróleo, vendido en el mercado negro. La corrupción oficial y el robo público concentran los ingresos en manos de los operadores del mercado negro, aumentando la desigualdad y erosionando la moral laboral de los trabajadores honrados. Igual de importante es que el robo acarrea mala asignación de recursos, retardos en las entregas de bienes y servicios y escasez de bienes. El castigo de altos funcionarios es necesario, pero insuficiente. Lo que requiere reformas de un modo especial es la creación de un nuevo sistema de responsabilidad pública basado en autoridades independientes de contraloría, comisiones de supervisión de consumidores y trabajadores con el poder de “abrir los libros”. El control por los trabajadores y profesionales no eliminará por completo la corrupción, pero cuestionará a las autoridades mediante estudios independientes periódicos. El presidente de facto Raúl Castro ha exigido que los ministros sigan ahora agendas estrictas y presenten informes escritos actualizados relacionados con su campo de trabajo. Una mayor responsabilidad de la dirigencia es necesaria, pero no suficiente. Tiene que haber control y vigilancia de comisiones autorizadas desde la base y de una oficina paralela independiente de contraloría general.
Las empresas mixtas y un cierto grado de desigualdades de clase fueron tal vez necesarias para atraer capital durante los años de crisis sistémicas y colapso del comercio y de las redes financieras, el denominado Período Especial. Sin embargo, lo que en su tiempo fue considerado como una retirada o ajuste tácticos en un período particular, se ha enquistado con efectos trascendentales. Las desigualdades sociales han creado eso que Fidel Castro llama una clase de nuevos ricos que abrazan la ideología liberal. Impulsan un mayor espacio para la colaboración pública-privada, tratando en última instancia de integrar a Cuba en un mercado mundial dominado por el capital imperial. En Cuba el sector público sigue siendo preponderante y políticamente poderoso [23], pero al ser incapaz de controlar la escasez en las necesidades públicas y de satisfacer el consumo individual, se hace cada vez más vulnerable a la crítica liberal y de sedicentes “socialistas de mercado”. Estos últimos arguyen que la solución a la escasez es un mayor espacio para inversionistas capitalistas e intereses comerciales, tanto internos como extranjeros.
Las desigualdades sociales no son sólo el resultado de fuerzas de mercado, la corrupción y el turismo. También son un producto de la concentración del poder político en la administración y la dirección de la economía y la disposición de los gastos públicos. Para limitar el crecimiento de una burguesía de nuevos ricos se requiere algo más que periódicas movilizaciones populares –como entregar el control de las gasolineras a trabajadores sociales– y los insistentes llamados a la moralidad (que son importantes). La lucha contra la Nueva Clase requiere que un nuevo sistema de representantes elegidos supervise las asignaciones del presupuesto a los diversos ministerios y tenga poder para convocar a funcionarios responsables a audiencias televisadas para que exista una responsabilidad pública estricta, cuando sea necesario.
Uno de los motivos de descontento más frecuentes y repetidos entre la población es la gran desproporción entre la ayuda humanitaria en el exterior y la escasez de bienes en el mercado interno. Nadie pide el fin de la solidaridad con los pobres de todo el mundo, pero la masa cubana no apoya el grado en que se gastan actualmente recursos, en vista de la escasez de bienes de consumo dentro del país.
Se han presentado varias objeciones relativas a los compromisos de Cuba en el extranjero y a prioridades mal identificadas. Ante todo, se dona mucha ayuda y no tiene un beneficio práctico para Cuba: los programas de salud no obtienen como respuesta reacciones diplomáticas y políticas favorables de los países receptores. De hecho, los gastos cubanos de salud permiten que numerosos regímenes reaccionarios favorables a EEUU sigan destinando fondos para incentivar inversiones extranjeras o comprar armas –como es el caso en Honduras, Pakistán, África y otros lugares–, reduciendo la presión popular sobre los gobiernos nacionales para que presten servicios sociales. Sin duda Cuba se gana el favor de los pobres de esos países, pero también provoca el resentimiento de muchos cubanos. Ante la urgente necesidad de acelerar programas internos, Cuba no está en condiciones de mantener costosos programas en el extranjero que carezcan de beneficios monetarios, estatales o comerciales. También se cuestionan los subsidios para estudiantes y pacientes extranjeros y para los numerosos delegados a conferencias.
Hay que pensar seriamente y tomar decisiones económicas durísimas para lograr un equilibrio efectivo entre las urgentes necesidades internas de Cuba y sus misiones humanitarias en el extranjero. Un ejemplo positivo de relaciones recíprocas equilibradas son los intercambios socioeconómicos de Cuba con Venezuela: petróleo a precios rebajados, inversiones y comercio de Caracas a cambio de servicios médicos, educacionales y sociales a gran escala prestados por la fuerza laboral altamente capacitada de Cuba.
Cuba es un país en desarrollo, que tiene grandes expectativas y logros, pero sigue siendo un país en el que la pobreza es evidente en las viviendas y en la deteriorada infraestructura del centro de La Habana.
Si Cuba ha de derrotar los desafíos externos y los del incipiente neoliberalismo interno, el sector público debe reaccionar mejor ante las necesidades populares. Para asegurar más transparencia y un mayor grado de reacción necesita más representación y supervisión de los sectores de consumidores y productores.
Cultura: la Revolución y los críticos neoliberales
La amenaza del neoliberalismo llega desde varios frentes. La “amenaza dura” más obvia proviene del imperio de EEUU, del gobierno y de la propaganda masiva de sus pseudoorganizaciones no gubernamentales (ONG), de los medios de entretenimiento, así como de fuentes informales de ese entorno y reclutadores deportivos. Nosotros argumentaríamos que esta animosidad de la “línea dura” contra la Revolución cubana es bien conocida, formidable, pero la menos efectiva... porque está claramente identificada y amplia y profundamente descifrada.
La amenaza cultural clara e inmediata para Cuba viene de dentro y está evidenciada en la disminución de las producciones culturales revolucionarias, en el cine, la literatura, el teatro y la música. En los años sesenta y setenta Cuba produjo magníficos documentales sobre las heroicas luchas del pueblo vietnamita, y los levantamientos negros en EEUU y el contraste entre intelectuales vacilantes y militantes revolucionarios. Durante las últimas dos décadas no ha habido un solo documental sobre las luchas de relieve histórico mundial de la resistencia iraquí, afgana o somalí contra las guerras imperiales dirigidas por EEUU, la lucha de la guerrilla colombiana contra la ‘democracia’ de los escuadrones de la muerte o la lucha de las masas negras de Nueva Orleans contra la erradicación capitalista de sus hogares, escuelas y hospitales.
Un destacado funcionario cubano de la industria cinematográfica me dijo que ésos eran “temas importantes”, pero que carecían de fondos y que frecuentemente tenían que trabajar en coproducción con productores españoles y otros europeos que no estaban interesados en luchas revolucionarias. El argumento financiero no es convincente [24]. Se han realizado documentales sobre guerras anticoloniales con presupuestos limitadísimos: dos pasajes de avión, una cámara vídeo, una grabadora, un saco de dormir y voluntad política, todo por menos de 5.000 dólares (menos que el precio de un solo anuncio turístico en un periódico europeo). No existe una necesidad financiera de ajustarse a los gustos de coproductores europeos liberales y posmodernos.
Muchos filmes y escritos denominados “críticos” caricaturizan a revolucionarios o a militantes o los excluyen por completo. Al ver, escuchar o leer las actuales producciones culturales cubanas se tiene la impresión de que ya no quedan revolucionarios honrados en Cuba.
La televisión cubana entrevistó recientemente a funcionarios literarios de los setenta, que defendieron posiciones culturales rígidas y dogmáticas en aquel período. Los “nuevos críticos” levantaron un revuelo, no sólo criticando justificadamente las políticas culturales de los antiguos funcionarios, sino atacando a las estaciones de televisión, la política cultural del gobierno y llamando a que haya despidos, investigaciones y censura [25]. En otras palabras, los “nuevos críticos” llamaban a introducir exactamente los mismos métodos autoritarios que sus antiguos perseguidores. Además, la vehemencia de su campaña en general adoptó el color de una caza de brujas contra todo esfuerzo literario o artístico que tratara de defender, proyectar o utilizar situaciones, valores revolucionarios o cualesquiera realidades o situaciones sociales positivas de la Cuba contemporánea.
Como parte del repertorio del “nuevo cine”, como contrapunto para la caricatura mecanicista, acartonada de revolucionarios, los exiliados cubanos son mostrados como individuos sensibles que tienen “sentimientos” hacia Cuba, pero están confortablemente situados en el extranjero. El nuevo cine no menciona que en EEUU los exiliados no gozan de atención sanitaria universal y de educación gratuita. En sus películas, los protagonistas exiliados carecen de toda conciencia sobre el régimen asesino de Bush, que mata a millones en Oriente Próximo. Ninguno de los crímenes contra la humanidad penetra en los sensitivos “argumentos personales” de los nuevos críticos.
La nueva literatura en Cuba –en su ruptura con el socialismo realista– contiene estereotipos raciales y sexuales, entre los que destaca la sensual mulata con largas piernas y prominentes nalgas. Aventuras románticas con turistas u hombres de negocios europeos llevan a lacrimosas separaciones y a promesas de un futuro mejor en el extranjero.
Considerando las décadas de estrechas relaciones culturales y educaciones con la URSS y la Europa del Este, hay una ausencia total de descripción o relato novelesco de la catastrófica crisis que ha afectado a la sociedad postsoviética y el ascenso del neoliberalismo en Europa del Este. En ninguna parte registran los artistas cubanos las masivas crisis socioeconómicas resultantes de la adquisición extranjera de las economías de las antiguas sociedades comunistas. No hay documentales o producciones dramáticas del saqueo de los fondos de pensión, del crecimiento vertical de bandas criminales involucradas en la droga y la esclavitud sexual de pobres mujeres y niñas ni la disminución sin precedentes de la población debido a las drogas, el alcohol, los suicidios y enfermedades infecciosas que otrora habían sido vencidas, como la tuberculosis y la sífilis. Al describir la nostalgia del exilio cubano, no hay nada del otro lado del neoliberalismo, sólo una visión de la relativa afluencia de la clase media occidental, en sí misma una clase con niveles de vida en decadencia.
¿Será que los “nuevos críticos”, con sus propias visiones liberales, se niegan a describir las desastrosas consecuencias del “socialismo de mercado” o del “postsocialismo” por temor a debilitar su propia versión de una transición a una “Cuba nueva y abierta”? Al evitar las horrendas consecuencias de las transiciones al capitalismo, prefieren concentrarse en la tarea más fácil de contrastar los problemas y contradicciones inmediatos de la Cuba pasada y presenta con un Occidente idealizado. Pocos artistas e intelectuales expresan preocupación por los defectos y contradicciones de su postura liberal-democrática.
Existe la necesidad de una revolución cultural en Cuba, de sobrepasar la insuficiente representación de afrocubanos en la publicidad, en las posiciones de dirigencia y en la visibilidad oficial; y de profundizar y ampliar la formación profesional de afrocubanos para disminuir su sobrerrepresentación en el boxeo y en otros deportes perjudiciales.
La recuperación de las prácticas culturales revolucionarias y programas de acción racial afirmativa fortalecen y profundizan el proceso del socialismo del Siglo XXI y abren el camino para la reformulación crítica del proceso de toma de decisiones económicas. Las reflexiones críticas y el debate sobre prácticas económicas pasadas probablemente llevarán a una mayor atención a una mayor racionalidad, coherencia y análisis de costos y beneficios. La dependencia de llamados morales al sacrificio ya no es tan efectiva como lo era en los años noventa. La introducción de nuevos proyectos públicos en gran escala con “resultados postergados” o promesas de concesiones futuras a las masas no generan entusiasmo popular, tal como señalara explícitamente Raúl Castro en su discurso del 26 de julio de 2007.
La planificación cubana de inversiones ha estado dominada por estallidos de entusiasmo ante grandes ideas directrices, que seguramente poseen algunas características progresistas pero que, realizadas en aislamiento de otras prioridades, no corresponden a criterios de análisis de costos y beneficios. Se destacan dos áreas: la informática y la biotecnología. Ambas reciben inversiones multimillonarias en dólares y han producido algunos resultados innovadores. Pero ha sido gracias a un gran costo en relación con otros sectores.
La inversión cubana del equivalente de varios cientos de millones de dólares en la construcción de una compleja universidad especializada en las ciencias informáticas es un ejemplo. El proyecto de universidad podría haber sido incorporado e integrado en centros universitarios existentes y, lo que es más importante, integrado con instituciones cruciales para la construcción de bases de datos y programas capaces de procesar información para mejorar el rendimiento de fábricas, gasolineras, hospitales y antecedentes de pacientes, etc. La contradicción entre una costosa universidad especial de ciencias informáticas avanzadas y el procesamiento anticuado de datos en instituciones sociales y económicas clave es indicativo de la tendencia a adoptar una “Gran Idea”, la informática, sin pensar a fondo cómo encaja y puede ser aplicada para solucionar problemas de ineficiencia, hurtos y retrasos.
La biotecnología es el área más citada por los cubanos como su sector de crecimiento futuro. Más de 1.000 millones de dólares han creado instalaciones de primera calidad, entrenado y reclutado a científicos de primera calidad y producido algunas importantes vacunas y progresos en ellos cuidados médicos. Sin embargo, hay que reconocer que en Cuba, como en el resto del mundo, el rendimiento de inversiones en biotecnología, tanto en términos de grandes adelantos médicos y en términos monetarios, ha sido en el mejor de los casos disparejo. Las innovaciones biotecnológicas han producido modestas mejoras en la salud pública, y ello tanto en Cuba como en Europa y en EEUU. Por cada descubrimiento exitoso, han fracasado varias docenas de costosos programas. Considerando la necesidad que tiene Cuba de cubrir de modo económico y fácilmente disponible las necesidades elementales de alimentos nutritivos, transporte público, viviendas familiares y otras necesidades urgentes, hay que plantearse el problema de las prioridades y debe ser discutido abierta y ampliamente en la sociedad cubana. Considerando los altos niveles de escasez crónica de artículos de consumo, el deterioro de las infraestructuras, los bajos salarios, ¿puede Cuba seguir invirtiendo miles de millones en sectores de alto riesgo?
¿Vale la pena el reconocimiento científico internacional y la ayuda humanitaria al precio del desencanto y la disminución del fervor revolucionario durante veinte años más de escasez en el país?
La política exterior cubana ha cosechado muchos éxitos diplomáticos importantes: un 98% de apoyo en la Asamblea General de las Naciones Unidas y un voto casi unánime en la Organización de Estados Americanos contra el bloqueo económico de EEUU. Cuba mantiene relaciones comerciales con casi todo el mundo e incluso un comercio no recíproco con EEUU, a pesar del endurecimiento del embargo comercial y de viajes durante los mandatos de Clinton y Bush (ley Helms-Burton). Cuba y Venezuela han impulsado exitosamente alianzas estratégicas comerciales, de inversiones y militares a pesar de la severa presión de la Casa Blanca. La política exterior de Cuba ha abierto y expandido relaciones diplomáticas y económicas con los regímenes clientes más serviles de Washington, a pesar de la presión de Washington. La “diplomacia pueblo a pueblo” le ha ganado el favor de los pobres de todo el mundo. La oposición intransigente de Cuba a los libres mercados y a las invasiones militares en Asia y Oriente Próximo (en particular las invasiones coloniales de Iraq, Afganistán y Líbano) ha granjeado a Cuba el apoyo de la gente en todo el mundo y la simpatía de numerosos gobiernos del Tercer Mundo.
El éxito mismo de Cuba en la ruptura del bloqueo diplomático y económico imperial ha creado una nueva serie de contradicciones: en ocasiones, el interés legítimo del Estado por incrementar al máximo el apoyo comercial y diplomático a Cuba ha llevado al gobierno a apoyar y refrendar a algunos regímenes reaccionarios neoliberales, como el de Lula Da Silva en Brasil, y a hacer gestos amistosos hacia el presidente de los escuadrones de la muerte, Uribe, en Colombia [26]. El problema crucial es la falta de separación entre el Estado cubano y el Partido Comunista de Cuba. Lo que es apropiado desde el punto de vista diplomático para el Estado cubano es políticamente reaccionario desde el punto de vista de los movimientos de masas populares en los países que combaten contra regímenes neoliberales. Cuba podría resolver el problema si el Estado y el partido fueran organizaciones claramente distinguibles. El partido podría hablar desde una perspectiva revolucionaria en solidaridad con las luchas de los pueblos y el Estado podría trabajar con los regímenes existentes.
Conclusión: contradicciones y alternativas
El éxito de Cuba en la superación del colapso de sus principales socios comerciales en Europa del Este y de la antigua URSS, y la reestructuración de su economía, son algunos de los acontecimientos más llamativos de la historia contemporánea. De la misma manera, la capacidad del sistema nacional de seguridad de Cuba para derrotar todos los esfuerzos de la mayor superpotencia del mundo por destruir la revolución no tiene precedentes en la historia mundial reciente.
El éxito de Cuba en garantizar un mínimo de recuperación económica mientras mantiene importantes programas sociales, la destaca del resto del mundo, en el que la reestructuración económica se ha visto acompañada por fuertes restricciones en los servicios sociales. Sin embargo, los cambios estructurados por el gobierno revolucionario han creado importantes contradicciones, que hasta ahora no han amenazado al sistema, pero podrían hacerlo si no se tuvieran en cuenta. Hay procesos, prácticas, políticas y estructuras que erosionan gradualmente la base de apoyo popular y deberían encararse con cierta urgencia mientras aún sean resolubles. Las reformas positivas podrían incluir:
1. Una planificación económica equilibrada, la supervisión de la administración y la participación de los trabajadores-consumidores en el proceso conjunto de toma de decisiones.
2. La publicación para el escrutinio público de cuentas, ingresos y gastos de todos los ministerios.
3. La publicación de cuentas de gastos, transporte, regalos privados y posesiones y compras en el extranjero de todos los altos funcionarios.
4. Debates públicos y referendos sobre las prioridades en las inversiones, ayuda al extranjero frente a programas internos de salud, vivienda y transporte.
Los responsables de la toma de decisiones en Cuba deberían romper con la mentalidad del monocultivo: es insuficiente romper con las exportaciones de azúcar y basarse en la economía turística y en materias primas (níquel, cítricos, tabaco, etc.). Podrá ser políticamente hábil desarrollar vínculos limitados con exportadores agrícolas en EEUU, pero no tiene sentido llegar a depender de alimentos y sacrificar la seguridad alimentaria, especialmente en el comercio no recíproco, con un Departamento del Tesoro de EEUU que exige dinero contante y sonante (¡sin crédito!) [27]. Aunque el ALBA es una gran alternativa al ALCA dominado por EEUU, Cuba debe desempeñar su papel promoviendo las importaciones de alimentos (que actualmente son casi nulas) de Bolivia, Ecuador o Nicaragua en lugar de EEUU, a cambio del cobro de exportaciones farmacéuticas y de servicios sanitarios y educacionales.
Cuba debería considerar la reapertura de sus campos de caña de azúcar cerrados con demasiada premura, especialmente aquellos (tierras llanas) adecuados a la cosecha mecanizada. Con los altos precios sustentables del azúcar debido al cambio hacia biocombustibles (etanol), Cuba puede ganar divisas extranjeras, producir etanol y reducir su dependencia del petróleo importado que, incluso a los precios subvencionados de Venezuela, sigue estando a más de 30 dólares por barril.
El nuevo complejo especializado en ciencias informáticas de Cuba debería integrarse en el sector de servicios económicos y sociales – programas aplicados: urge tener programas de estudio en hospitales y fábricas para crear redes informáticas que vinculen a hospitales, clínicas y sitios de trabajo. Hay que computerizar sistemas de transporte para controlar la puntualidad, reducir desvíos de rutas que llevan a entregas ilegales de materiales sustraídos de almacenes estatales a negociantes del mercado negro. La computerización, que incluya datos diarios o incluso instantáneos sobre ingresos del petróleo y de otros puntos de distribución, aumentará los ingresos y reducirá la corrupción. La computerización y los consejos de supervisión de consumidores-trabajadores-contables definirán parcialmente el socialismo del Siglo XXI.
La diversificación industrial, especialmente en líneas relacionadas directamente con productos para la economía popular y la exportación, requiere mayor énfasis en la formación profesional, el diseño de ordenadores y los estudios del consumo. La computerización tiene que estar más estrechamente relacionada con la satisfacción de urgentes necesidades populares.
Cuba debe invertir en la industrialización de sus productos del níquel, sumando puestos de trabajo calificados en la manufactura y valor agregado a sus exportaciones a China y otros países. Sobre todo, Cuba debe recuperar su seguridad alimentaria [28]. No existe ninguna razón justificable por la que Cuba no pueda ser autosuficiente en carne de aves de corral, carnes, arroz, frijoles y otros alimentos esenciales si reestructura sus prioridades de desarrollo económico, pone más énfasis en el desarrollo y la profundización de su mercado interno y transfiere sus inversiones de los sectores terciarios sobredesarrollados a sus sectores primarios y secundarios.
Cuba ha sobrevalorado sus programas de ayuda médica al extranjero suministrando clínicas nuevas, mientras que sus hospitales locales se deterioran. Las salas de espera y las de las clínicas vecinales deben estar limpias y bien pintadas. Algunas clínicas carecen de suficiente personal. El personal de mantenimiento está infrautilizado. Los hospitales carecen de equipos básicos de capacitación y de reactivos químicos en los centros de diagnóstico, etc. Aunque observadores exteriores comparan correctamente la vasta superioridad de Cuba frente al pobre sistema de atención sanitaria pública en EEUU, los cubanos se han quejado recientemente de demoras y esperas en el tratamiento a causa de la asignación al extranjero de personal médico.
Cuba debe pensar, con Martí, en recrear la dinámica nacional interna de la revolución, colocando por encima de todo la satisfacción de las necesidades de consumo del pueblo cubano. Esto puede lograrse corrigiendo los desequilibrios entre los sectores de exportación e interior, el desarrollo de la capacitación avanzada y de las necesidades prácticas de la economía. El sistema educacional, actualmente orientado hacia el sector de servicios, debe producir graduados para diversificar la manufactura y reanimar la producción de alimentos.
Cuba ha demostrado en el pasado su capacidad de resolver sus contradicciones internas. Las actuales contradicciones no son irresolubles pero requieren una reconsideración seria y profunda de las actuales prioridades, estrategias y estructuras. Es necesario un debate a fondo abierto entre todos los cubanos antiimperialistas para profundizar y sustentar los logros de la revolución.
Los nuevos dogmas y posturas de artistas, escritores y cineastas apolíticos y liberales constituyen un obstáculo de la misma importancia para la profundización de la revolución que los burócratas afianzados en sus posiciones. La Revolución cubana y sus dirigentes pueden contar con una enorme reserva de buena voluntad, solidaridad y lealtad de la vasta mayoría de los cubanos. Pero hay límites en el tiempo y la paciencia, pues el deseo cubano de una buena vida exige soluciones para las necesidades de cada día.
Retrasos y constantes postergaciones en la satisfacción de necesidades de vivienda, ingresos y alimentos sólo ayudan a los contrarrevolucionarios liberales internos que argumentan en favor de mayores “libertades de mercado” [29]. Los llamados a la moralidad y las medidas disciplinarias son necesarios, pero insuficientes si no se acompañan de más supervisión popular y de una creciente disponibilidad de bienes materiales, incentivos materiales, una calidad asequible y alimentos variados y viviendas disponibles para cada generación familiar. El futuro de la revolución es ahora mismo, no durante nuestra vida, sino este año. Lo que está en juego es nada menos que el futuro de la Revolución cubana mientras prosigue el actual debate de gran alcance sobre la estrategia, las estructuras sociales y la acción política.
Tal como declarara uno de los líderes históricos de la revolución de 1959, el comandante Ramiro Valdés, el pasado 28 de mayo de 2007: “Fortaleceremos internamente en la economía, en los dominios de la ciencia y la tecnología, en la conducción de las problemas sociales y la calidad de vida de nuestro pueblo, son tareas a las que tenemos que volcarnos con eficiencia creciente, si queremos que la revolución y el socialismo cubano sean realmente irreversibles, como esperan Fidel y Raúl” [30].
Notas:
1. Morris Morley: “Imperial State and Revolution: The United States and Cuba (1952-1986)”, Cambridge University Press, NY 1987.
2. Ernst and Young, “A Business Guide to Cuba” (February 2006), Bridgetown, Barbados. Part 1. Vea también Fidel Vascos González, “Economía Cubana: Se Acelera su Ritmo de Crecimiento”, Cubarte 2007.
3. Íbid parte 3, página 36.
4. Morley, obra citada.
5. Ernst and Young, obra citada.
6. Entrevistas con el director de la Universidad de las Ciencias Informáticas (UCI), 11 de febrero de 2006. Véase también Ernst and Young, obra citada, parte 6.
7. Ernst and Young obra citada, partes 1 y 2. Comisión Económica para América Latina de Naciones Unidas (CEPAL), informe para 2006 subrayó el crecimiento ininterrumpido de Cuba desde 2003.
8. James Petras, “La responsabilidad de los intelectuales: Cuba, los Estados Unidos y los derechos humanos, 5 de mayo de 2003 http://www.rebelion.org/noticia.php?id=55007
9. Entrevista con Felipe Pérez Roque, Ministro de Relaciones Exteriores de la República de Cuba, 4 de febrero de 2004.
10. Paul Klebnikov, Godfather of the Kremlin: The Decline of Russia in the Age of Gangster Capitalism (Harcourt NY, 2000); James Petras “Global Ruling Class: Billionaires and How They Made it”, Journal of Contemporary Asia, Jan. 2008; David Hoffman, The Oligarchs (Public Affairs NY, 2003).
11. Ernst and Young, obra citada, Parte IV, Foreign Direct Investment, y Parte VI, Sectors for Foreign Investment.
12. Klebnikov, obra citada, Hoffman, obra citada.
13.Fidel Castro, Discurso en la Universidad de La Habana, 17 de noviembre de 2005. (Granma, 18 de noviembre de 2005). Fidel subrayó que la Revolución enfrenta su principal peligro de la Nueva Clase de su interior.
14. Discurso de Raúl Castro en Camagüey, 26 de julio 2007. “Año 49 de la Revolución”. Raúl Castro subrayó la necesidad de más producción agrícola interior, especialmente de alimentos para el consumo local, señalando “deficiencias estructurales”.
15. Gideon Alon, “Just a Farmer in Cuba”, Haaretz 3/7/07. El informe en la prensa israelí se refiere a Rafi Eitan, antiguo jefe de las operaciones europeas del Mossad, policía secreta de Israel: “Eitan es socio de una compañía que posee vastos huertos en Cuba... La compañía se ocupa de agricultura en Cuba... produciendo concentrado de jugos cítricos en la mayor planta del mundo”. Capitalistas israelíes están invirtiendo decenas de millones de dólares en un complejo de oficinas en La Habana, que constará de 18 edificios de oficinas de seis pisos en 186.000 metros cuadrados. El proyecto es una sociedad conjunta entre la agencia estatal cubana, Cubalse y el Grupo BM, una corporación israelí dirigida por Rafi Eitan.
16. Véase Juventud Rebelde, 18 de junio de 2007, en Gerardo Arreola, “Trabas burócratas ahondan crisis de vivienda en Cuba: Juventud Rebelde”. Citado en La Jornada, 18 de junio de 007. Según la publicación sindical Trabajadores, de 8.934 unidades habitaciones aprobadas para 2005, sólo 1.445 fueron construidas hasta mayo de 2007.
17. “La Población cubana decrece y envejece”, Xinhua 11/07/2007; Gerardo Arreola “Decrece la población cubana”, La Jornada 9 de marzo de 2007.
18. Íbid.
19. Raúl Castro, 26 de julio de 2007. Discurso en Camagüey. Raúl Castro cita el ejemplo del desperdicio de petróleo en el transporte de leche de las lecherías a las plantas de procesamiento de vuelta a consumidores que viven cerca de las mismas lecherías.
20. Discurso de Fidel Castro en noviembre de 2005 – Universidad de La Habana (Granma 19 de noviembre de 2005) e informe subsiguiente en Gerardo Arreola, “El Presidente cubano recibe 2006 en un gasolinera de la Habana”. La Jornada, 2 de enero de 2006.
21. Discurso de Raúl Castro, 26 de julio de 2007.
22. Pedro Campos, “Debería Cuba reconsiderar comercio unidireccional con EEUU y avanzar a la autosuficiencia alimenticia”, junio de 2007 (Perucho1949@yahoo.es).
23. Sobre la preponderancia de la propiedad estatal a pesar del avance de las sociedades mixtas véanse los pronunciamientos del Ministro de Economía José Luis Rodríguez en Gerardo Arreola, “Firme en Cuba el predominio de la propiedad estatal: Ministro de Economía”, La Jornada, 30 de mayo de2007.
24. Entrevista en La Habana, 7 de febrero de 2005.
25. Gerardo Arreola, “Cuba: el fantasma de la censura”, La Jornada 19 de enero de 2007.
26. Gerardo Arreola, “Intercambian invitaciones Castro y Uribe para hacer visitas recíprocas”, La Jornada, 2 de abril de 2007; “Nueva etapa de cooperación y solidaridad con Cuba: Torrijos, La Jornada, 2 de diciembre de 2005. Torrijos es Presidente de Panamá y un notorio propugnador del libre mercado y partidario del ALCA.
27. El director de las importaciones de alimentos de Cuba, Pedro Álvarez, proyectó la compra de entre 1.500 y 1.600 millones de dólares en importaciones de alimentos de EEUU, la gran mayoría de los cuales podrían ser producidos en Cuba. Las importaciones de alimentos de EEUU representaron más de la mitad del déficit comercial neto de Cuba para 2006. Entre 2001 y 2006 Cuba ha gastado 2.260 millones de dólares en compras de alimentos de EEUU. Sobre las importaciones de alimentos de Cuba de EEUU, véase Ernst and Young, obra citada, Partes II y III; “Cuba prevé comprar este año en el exterior entre mil 600 y mil 700 millones de dólares en alimentos”, La Jornada, 31 de julio de 2007. Sobre los precios exorbitantes en el mercado de agricultores de Cuba en relación con sueldos y jornales, véase BBC News, 31 de julio de 2007.
28. Raúl Castro subraya la necesidad de aumentar la producción de alimentos y de industrializar y diversificar la economía en su discurso del 26 de julio de 2007, critica la inercia burocrática y llama a nuevas formas de relaciones de propiedad incluyendo la inversión extranjera (esto como reacción ante la incompetencia de la actual administración estatal).
29. Actualmente, en Cuba, Raúl Castro ha convocado a una serie de grupos de trabajo independiente basados en académicos para considerar los problemas y deficiencias de la propiedad estatal y relaciones público-privadas alternativas.
30. La Jornada, 30 de mayo de 2007.
Fuente: http://axisoflogic.com/artman/publish/article_25104.shtml
Los últimos libros del profesor Petras incluyen The Power of Israel in the United States (Clarity Press 2006) y Rulers and Rules (Clarity Press 2007).
Manuel Talens, Germán Leyens y Juan Vivanco son miembros de Rebelión. Talens y Vivanco son asimismo miembros de Cubadebate y Tlaxcala, la red de traductores por la diversidad lingüística.
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