
quinta-feira, 29 de maio de 2008
domingo, 25 de maio de 2008
O novo partido alemão, A Esquerda, esteve em congresso este fim-de-semana. Este partido, que junta várias forças à esquerda, tem um forte pendor operário e uma clara presença dos activistas do IGMetal. Possui hoje a presidência do Partido da Esquerda Europeia, uma "associação" europeia de partidos onde estão quase todos os principais partidos da esquerda europeia. De Portugal, só o BE participa.
É um partido a seguir com atenção. Em baixo a notícia do jornal Público.
"O co-presidente do partido radical de esquerda alemão Die Linke, Oskar Lafontaine, lançou ontem uma mensagem de unidade às suas forças, reunidas em congresso, "para mudar a política". "O vento da História sopra nas nossas velas, mas é precisa coragem para mudar a política", afirmou o líder do partido, que, criado em Junho de 2007, foi muito bem sucedido nas recentes eleições locais.Lafontaine -vindo do Partido Social Democrata, que presidiu - fez, aos 562 delegados reunidos em Cottbus, um balanço extremamente positivo do caminho percorrido em um ano pelo seu novo partido, fruto da fusão dos neocomunistas de Leste (PDS) e uma pequena formação radical da Alemanha ocidental (WASG)."Avançámos bem mas é preciso que não adormeçamos. Sejamos um partido que ousa ir contra o espírito dos tempos", exortou Lafontaine aos membros do partido, cuja unidade está por consolidar.O Die Linke, ainda sob os efeitos inebriantes de ter entrado em quatro parlamentos regionais no Oeste do país, é actualmente a terceira maior força partidária alemã, tanto em número de mandatos eleitorais - está em dez dos 16 parlamentos - como de membros (eram já 73.455 em Abril). E surge com 14 por cento das intenções de voto para as eleições legislativas de 2009, à frente dos Verdes e dos liberais do FDP, aliados tradicionais dos conservadores da chanceler alemã, Angela Merkel. AFP "
sexta-feira, 23 de maio de 2008
Notícias da pobreza são o fracasso total do capitalismo português

quinta-feira, 22 de maio de 2008
Governo Lula mantem ortodoxia financeira
Publicado em Correio da CidadaniaMal passados alguns dias, lança-se em grande estilo a Política de Desenvolvimento Produtivo, a partir da desoneração fiscal de vários setores e suporte financeiro do BNDES. Anuncia-se ainda a criação de um Fundo Soberano, para investimentos e apoio a empresas brasileiras no exterior, a ser financiado com o aumento do superávit primário (receitas menos despesas, exceto juros).
Recauchutagem de programas anteriores que rastejam ou ficaram esquecidos, ausência de especificações de critérios concretos de desempenho de setores que irão receber subsídios fiscais, todas essas são questões que, por óbvias, vêm sendo marteladas pelos colunistas da grande mídia.
Quanto ao Fundo Soberano, fará crescer a dívida pública interna, paga a elevadíssimas taxas de juros, para financiar atividades externas de algumas empresas a taxas bem menores. Para o ministro Mantega, no entanto, a operação de financiamento do Fundo é muito comum: trata-se da lógica do velho cofrinho, onde "você ganha o salário, faz as despesas e sobram os recursos. Aí você coloca no cofrinho. Vamos colocar no cofrinho o excedente".
A vida não costuma ser assim tão simples, sabemos todos. Para comentar, portanto, alguns dos aspectos mais complexos envolvidos nas novas medidas, especialmente quando contextualizadas pela atual conjuntura política e econômica, conversamos com o economista do IPEA e membro da Comissão Brasileira de Justiça e Paz, Guilherme Delgado.
Confira abaixo.
Correio da Cidadania: Como você enxerga as mais novas medidas de Política Industrial do governo, lançadas nessa segunda-feira, 12 de maio, com a desoneração fiscal de várias atividades até 2011– totalizando cerca de 21 bilhões de reais - e incentivos de cerca de 210 bilhões de reais do BNDES até 2010 para financiar os setores industrial e de serviços?
Guilherme Delgado: Do ponto de vista teórico, de se promover uma política de desenvolvimento e de incentivar o progresso técnico e as mudanças de competitividade do setor industrial, em princípio, são medidas positivas.
No entanto, o quadro conjuntural no qual nos inserimos e o formato dessas medidas que estão sendo alinhavadas, muito preocupadas em responder à pressão do déficit em conta corrente do balanço de pagamento e à conseqüente valorização cambial do real - o que, na realidade, tira o foco de competitividade do setor industrial -, me deixam bastante reticente com relação à sua eficácia. Isso porque, na realidade, não estão tocando no fenômeno cambial e monetário, que é o fenômeno bastante preocupante no que se refere à competitividade industrial; tocam apenas no lado fiscal, tentando gerar incentivos fiscais compensatórios, na expectativa de que os setores contemplados tenham projetos com mais alta taxa de retorno e voltem a ser competitivos no mercado externo.
Precisaríamos fazer uma análise ramo a ramo, mas o quadro que observamos hoje na economia brasileira, que não é recente, é o de deslocamento da chamada competitividade industrial para aqueles setores de relação mais forte com o agronegócio, por terem tradicionalmente um coeficiente muito baixo de importações e uma presença e avanço mais fortes no setor externo, através das exportações. Tanto que os setores industriais têm estado relativamente precários e fortemente dependentes de importações, até pelo próprio fato de ter havido uma abertura e liberalização muito grandes no setor industrial, o que fez com que várias cadeias fossem perdidas, desmontadas, perdendo potência competitiva.
Nesse sentido, reafirmo que a idéia é, teoricamente, positiva, mas, em função da conjuntura que vivemos, não há certeza de que será eficaz nesse formato em que está sendo desenhada.
CC:Foi também anunciada a criação de um Fundo Soberano, que parece parte dessa pretensa Política Industrial, como forma de apoiar a expansão de empresas brasileiras no exterior. O que vem a ser exatamente esse fundo e qual a sua avaliação sobre o mesmo?
GD: O Fundo é parte de uma briga interna do Ministério da Fazenda com o Banco Central. O BC tem total incumbência e responsabilidade em gerir reservas externas, totalmente descompromissado da política industrial e de políticas de desenvolvimento, e o que quer o Ministério da Fazenda é pegar parte dessas reservas e aplicá-las no BNDES para financiar empresas no exterior.
CC: Por sugestão do economista Luiz Gonzaga Belluzzo, boa parte dos recursos desse Fundo Soberano viria a partir de economia fiscal – a meta do superávit primário, hoje em 3,8% do PIB, seria ampliada para 5% do mesmo. Ao mesmo tempo, esse novo pacote de medidas do governo prevê a renúncia fiscal. Como essa conta vai ser fechada?
GD: Em princípio, a idéia do Fundo Soberano é boa. No entanto, o Fundo ser apoiado pelo aumento do superávit primário é preocupante, pois, dessa forma, você retira recursos fiscais que de alguma forma alimentam a demanda efetiva interna – investimentos, infra-estrutura, gastos na política social e outros – e injeta diretamente no setor externo da economia. Ou seja, há um preocupante deslocamento de prioridades. Claro que o Fundo Soberano precisa investir, mas deveria investir dentro da meta de superávit primário já existente, isto é, utilizar-se de um pedaço desse recurso para financiar o BNDES, sem aumentar ainda mais o superávit primário do orçamento fiscal.
O que eles dizem é que, se usarem o superávit primário e não a dívida pública, terão uma base fiscal para financiar esses dólares. Essa é a idéia de usar o superávit primário adicional, que geraria os reais para não impactar a dívida. Mas o aumento do superávit primário, já alto, numa economia que precisa se expandir, que tem uma demanda interna em expansão, é uma medida contracionista, criando um processo muito ambíguo.
CC Não se estaria acobertando a idéia de se aumentar ainda mais o superávit primário sob o manto do desenvolvimentismo?
GD: A verdade é que se acaba deixando tudo igual. Conserva-se a política de juros, a valorização cambial, aumenta-se o superávit primário... Isto tudo acaba sendo uma ação entre amigos, em vez de ser uma política de forte reversão das tendências estagnacionistas e de dependência, ou de alavancar o desenvolvimento.
São duas idéias boas, política industrial e fundo soberano, mas, nessa versão e em nossa atual conjuntura, são remendos de tecido novo e velho, cuja conseqüência é aumentar o rasgo, e não costurar o tecido.
CC: Há ainda parte dos recursos desse Fundo que seriam originários da compra direta de dólares pelo Tesouro no mercado de câmbio: ou seja, uma operação tradicional, financiada pela emissão de títulos públicos e com novo impacto altista na dívida pública interna.
GD: O que ocorre realmente ao final é que a dívida tem que ser financiada por tributos ou por nova expansão da dívida. E no caso da expansão da dívida interna, advém um novo custo fiscal uma vez que há um diferencial de juros muito alto entre o mercado interno e o externo. Assim, do ponto de vista de uma verdadeira política de desenvolvimento, o formato no qual está sendo baseado esse Fundo é bastante ambíguo.
CC: Recém anunciado também com grande destaque no noticiário econômico nos últimos dias foi o ‘Investment Grade’ para o Brasil. O que significa esse anúncio no atual momento a seu ver e quais podem ser possíveis efeitos para nosso país? O Brasil está passando incólume pela crise internacional ou virou, de alguma forma, a menina dos olhos do capitalismo financeiro internacional?
GD: ‘Investment Grade’ é uma tábua de salvação que aumenta o tamanho da corda no pescoço. Ele chegou num momento em que o país reverteu, e de forma explosiva, o superávit para déficit na conta corrente. Tivemos no ano passado um superávit de 3,5 bilhões e, nesse primeiro trimestre de 2008, o déficit acumulado é de 15 bilhões, projetando-se 25 bilhões ou mais até dezembro. Na realidade, se esse déficit em conta corrente tem relação, e sabemos que tem mesmo, com a valorização cambial, com a política de industrialização e tudo mais, a emergência da novidade do ‘Investment Grade’ nas operações financeiras internacionais vai aumentar a valorização cambial. Isso acontece, pois se abrem as portas para a entrada de mais dólares, sem que se tenham equacionado os demais fundamentos da economia, principalmente a causa primária desse déficit na conta corrente, como, por exemplo, as remessas de lucros. Com a abertura da conta de serviços vis-à-vis programas de importações industriais que visam a um processo de desmontagem de cadeias industriais pela liberalização, como se vai combater esse quadro com entrada de investimento direto a qualquer custo?
Decorrerá daí mais valorização do câmbio e maior inibição das exportações, e não a diminuição do déficit em conta corrente.
Vejo esse momento com preocupação, porque a alegria e euforia me parecem um pouco equivocadas. Que estejam eufóricos os capitais que vêm aqui até posso entender, pois não estão perdendo tempo, já que têm uma tradição de ir e vir na hora que quiserem, levando bons rendimentos.
Porém, para o país como um todo, nesse momento, estamos entrando num ciclo de reversão da política econômica, pois, para combater o déficit em conta corrente e as pressões trazidas por ele, a tendência é reforçar a cobertura que se fez desse déficit pelas exportações de commodities. Ou seja, a tradição da nossa política macroeconômica em face desse déficit é acelerar a exportação de commodities primárias, alavancando o setor agrícola, especialmente agora, com a pressão dos preços de alimentos. E outra das tradições é elevar a taxa de juros para coibir ou contra-atacar a pressão dos preços dos alimentos.
Essas duas medidas que estão em curso e devem ser alinhavadas mais adiante têm um caráter de inibição do crescimento da demanda interna e do crescimento econômico. Combatem conjunturalmente o aumento de preços dos alimentos, mas não combatem a causa, que está ligada à super-alavancagem das exportações agrícolas, utilizada exatamente para cobrir o déficit estrutural em conta corrente, que agora recrudesceu de forma acentuada.
Portanto, na realidade, esse arranjo macroeconômico do setor agrícola, do setor externo da economia, que aparentemente tivera sucesso até 2007, corresponde a um modelo primário-exportador sem futuro, pois não tem a capacidade de servir ao capital estrangeiro no formato em que se desenhou o programa. O que temos é o setor agrícola, do agronegócio, exportando e o capital estrangeiro gerando déficit em conta corrente. No entanto, chega-se num momento em que se geram pressões tão desmesuradas que a forma de conter esse quadro é novamente abortar o crescimento econômico.
CC: Para encerrar, podemos então dizer que nos deparamos novamente com medidas que mais parecem uma recauchutagem de antigas políticas, que não mexem estruturalmente com a nossa economia? Muda-se tudo pra deixar tudo como está?
GD: Exatamente. A idéia que foi conjuntural hoje é comprada por meio mundo como idéia estrutural. O Brasil passa a ser um exportador líquido de carne - bovina, de frango etc. -, álcool e minerais. A partir desses setores, que têm alta competitividade ou vantagens comparativas naturais, lança-se um saldo expressivo de dólares para cobrir o déficit estrutural da conta corrente.
Mas esse déficit precisa ser estrutural ou resolvido? Em primeiro lugar, será impossível alavancar o setor primário para fazer essa cobertura. Em segundo lugar, ou se encontra um sentido, um futuro, para esse formato de desenvolvimento econômico, ou, ao primeiro espirro da crise financeira, ele vai explodir. São esses cenários que estamos vendo.
Podem acumular as reservas que quiserem, porque esse ajuste macroeconômico em cima do agronegócio, com o setor industrial de alta tecnologia sendo relativamente descartado, não tem substância. Cobre-se uma situação de emergência e depois se passa a uma política de restrição do crescimento, pura e simplesmente para poder gerir a conta corrente.
segunda-feira, 19 de maio de 2008
As bombas da ETA

quinta-feira, 15 de maio de 2008
Visita de estudo do PCP à China !!! ???

Vilarejo - Marisa Monte (Palestina shangri-lá)
(desligar primeiro a rádio ideal comum)
Pinto da Costa no Parlamento

quarta-feira, 14 de maio de 2008
Adeus socialismo?

Vital Moreira (VM) diz que “o socialismo democrático não se afundou juntamente com o desabamento quase universal do comunismo”. Esta frase tem vários enganos.
Em primeiro lugar o dito socialismo democrático está a ser derrotado estrondosamente em toda a Europa, as últimas eleições da França, da Itália ou da Inglaterra mostram que a vontade enorme dos partidos da Internacional Socialista em se deitarem na cama do neoliberalismo só resultou em irem parar ao tapete; depois de terem proporcionado ao capital os prazeres mais pornográficos. O caso espanhol, com alguma abertura nos costumes e nas nacionalidades, para que a burguesia moderna e liberal derrota-se a burguesia conservadora permitiu-lhe sobreviver. O caso português é o que se conhece. Mas em todos os casos são os partidos “socialistas” e social-democratas que estão a cavar a sua própria sepultura.
O segundo engano é que o comunismo enquanto projecto de poder não desabou quase universalmente – desabou mesmo universalmente. Isto porque não consideremos ditaduras como a chinesa ou a norte-coreana como experiências socialistas. Mas se o comunismo perdeu o comunismo recuperará; porque vai resgatar os ideais comunistas, vai limpar o nome das atrocidades e dos desvios e vai recompor-se como projecto emancipatório para milhões de pessoas.
VM diz que a adesão dos “socialistas” à disciplina monetária, à nova gestão pública, à competitividade empresarial… é “apenas exigência de bom governo – nada disso exige o abandono dos traços propriamente socialistas de esquerda”. Ora está à vista o bom governo, a fome alastra, o desemprego alastra, a pobreza alastra, as diferenças entre pobres e ricos alastram, os problemas ambientais alastram, a guerra tão ao jeito da “cama imperial” só alastra morte e exclusão humana. Bom governo isto? Os ditos socialistas são dos maiores derrotados da história.
E a esquerda que se lhe colou, na esperança dos governos de disputa, na esperança do mal menor saíram derrotados como eles. O exemplo italiano é paradigmático.
O futuro só pode mesmo ser da esquerda, da esquerda que não se verga, da esquerda que abra novas saídas, da esquerda que procura novas alianças contra o neoliberalismo, da esquerda que se abre aos movimentos e à energia das massas e da juventude. Aí está a vitória.
domingo, 11 de maio de 2008
A derrota de Londres

Espantados com Margaret Thatcher, Blair e Brown copiaram as suas medidas para dentro do seu próprio partido, espremendo para fora de si próprios, gota a gota, as velhas ideias social-democratas. Todos se tornaram fundamentalistas do mercado. As desregulamentações e as privatizações tornaram-se um mantra e nos últimos dez anos a divisão social entre ricos e pobres aumentou mais do que sob o governo de Thatcher. A redistribuição da riqueza deixou de estar na agenda trabalhista.
Quando o mercado sofreu uma série de choques - o colapso de um banco britânico coberto de dívidas, o Northern Rock, levou a uma intervenção estatal na forma de nacionalização. Ninguém retirou lições. A ajuda aos ricos através de maiores cortes de impostos, o abandono (sob pressão do Financial Times) de planos para cobrar impostos sobre os bilionários não-domiciliados simbolizaram o regime. O modelo neoliberal atomizou a vida social e política, enfraqueceu a responsabilidade democrática e reduziu drasticamente as margens das possibilidades reformistas dentro do sistema. Depois do 11 de Setembro, as liberdades civis degradaram-se seriamente. Há algumas semanas, Brown e os seus ministros estavam a defender o aumento do período de 42 dias de detenção de suspeitos sem acusação. Os conservadores e os chefes da polícia opuseram-se, achando que eram medidas demasiado draconianas.
O sistema eleitoral britânico ajudou a ocultar o inexorável declínio do apoio popular à agenda blairista. Já não oculta mais. O Imperador do New Labour foi agora exposto sem roupas. O poder pode modelar a "verdade", mas não para sempre. Esta é a lição da derrota trabalhista.
Em Londres, a escolha era clara. Boris Johnson é uma estrela de comédias de TV, uma celebridade conservadora que cultiva cuidadosamente uma imagem ultra-reaccionária. Dada a forma como os políticos se tornaram impopulares em tantas partes do mundo, não é surpreendente que o estatuto de celebridade e a riqueza tenham ocupado o centro do palco. Um patético e ineficaz ex-polícia candidatou-se pelos Liberais Democratas e Ken Livingstone foi o candidato do Labour. Apesar de Livingstone ter ganho as últimas eleições como independente contra o New Labour, decidiu depois fazer as pazes com Blair e voltou ao partido, apesar de manter uma postura independente em relação às guerras do Iraque e do Afeganistão, e de desenvolver a sua própria política externa, convidando Hugo Chávez a visitar Londres.
As eleições para presidente da Câmara de Londres reflectiram o humor nacional. É óbvio que Livingstone cometeu erros. O maior de todos não foi o de receber um excêntrico clérigo muçulmano, enfurecendo a imprensa de direita; foi o de reentrar no curral do Labour. A base da sua popularidade repousava no facto de ele não ser um político manufacturado pelo New Labour. O facto de a margem da sua derrota ser menor do que a média nacional reflecte este aspecto, mas não foi suficiente para salvá-lo. Ele sofreu por estar associado ao governo impopular dos trabalhistas. Se se tivesse mantido independente e atacado os regimes de Blair e Brown, em vez de se deixar fotografar com eles, teria ganho.
Uma cidade onde 70% dos cidadãos se opõem à presença britânica no Iraque será agora representada por um presidente da Câmara pró-guerra. Quem se importa se um milhão de iraquianos morreram desde a ocupação do seu país, que haja três milhões de refugiados e que aquele sofrido país enfrente as mais horrendas condições na sua vida diária. Tudo o que estivava associado ao New Labour foi punido.
Tariq Ali, 4/5/2008
Tradução de Luis Leiria
segunda-feira, 5 de maio de 2008
O Benfica continua em 3 frentes

mas o Benfica continua em três frentes:
- Frente ao Colombo
- Frente à Repsol
- Frente ao Media Market"
quinta-feira, 1 de maio de 2008
O que temos para comemorar no 1º Maio?

Vivemos uma explosão de denúncias sobre o aviltamento do trabalho. O espetáculo se esparrama por todas as partes
VIVEMOS uma explosão de denúncias sobre o aviltamento do trabalho. A cada dia vemos mais exemplos de trabalho escravo no campo, nos rincões do latifúndio. No agronegócio do açúcar, cortar mais de dez toneladas de cana por dia é a média por baixo, "low profile".
No final do ano passado, esta Folha descreveu a degradação do trabalho imigrante, especialmente boliviano, nas empresas de confecção em São Paulo. Jornadas de até 17 horas diárias em troca de casa e comida. Trabalho imigrante no limite da condição degradante.
Mas o espetáculo é multifacético e se esparrama por todas as partes: "chicanos" nos EUA, decasséguis no Japão, "gastarbeiters" na Alemanha, "lavoro nero" na Itália, "brasiguaios" no Paraguai -a lista não tem fim.
Sem falar nos desempregados do Leste Europeu que invadem o "pequeno canto do mundo" ocidental em busca dos restos do labor.
Se nos inícios do século 20 os povos do Norte migraram em massa para o Sul, encontrando acolhida, agora presenciamos o exato inverso, pois o fluxo migracional mudou de direção. Os deserdados do Sul tentam furar os bloqueios do Norte, cujo exemplo mais abjeto é o muro da vergonha que separa os EUA do México.
Ou, mais sutil, mas também cruel, a barreira das polícias alfandegárias nos aeroportos do chamado "mundo civilizado", obstando a entrada dos "bárbaros" do fim do mundo. O exemplo da Espanha contra brasileiros é a mais recente expressão fenomênica do problema e fala por si só.
Mas há uma autêntica conquista da chamada globalização: enquanto os capitais migram com velocidade mais ágil que a dos foguetes, o trabalho deve mover-se no passo das tartarugas.
Capitais transnacionais livres e trabalhadores nacionais cativos. Num mundo cada vez mais maquinal, informacional e digital, presenciamos também a explosão do "cybertariado" (Ursula Huws), trabalhador qualificado da era da cibernética que vivencia as condições do velho proletariado. A informalização, dada pela perda de liames contratuais de trabalho, vem aumentando em escala global, num contexto de ampliação de todas as formas de terceirização, gerando as mais distintas modalidades de trabalho precário, que se desenvolvem com a chamada polivalência da era flexível.
No Japão, jovens operários migram em busca de trabalho nas cidades e dormem em cápsulas de vidro, do tamanho de um caixão. São os operários encapsulados. Do outro lado do mundo, na nossa América Latina, encontramos trabalhadoras domésticas (mulheres e crianças) que atingem a jornada semanal de 90 horas de trabalho, com um dia de folga ao mês (Mike Davis), numa era em que poderíamos trabalhar dez vezes menos, se a lógica predominante não fosse tão destrutiva para a humanidade que depende de seu trabalho para sobreviver.
São essas algumas cenas do trabalho hoje. E ninguém poderá buscar um emprego, atualmente, se não demonstrar que realiza "trabalhos voluntários". É curioso: para conseguir emprego, são "obrigados" a realizar trabalhos "voluntários".
E isso sem falar na explosão do estagiário, candidato fresquinho a roubar um trabalho efetivo com remuneração de escravo. Ou nas tantas manifestações de desigualdade de gênero, em que as mulheres trabalham mais, com menos direitos e reduzida remuneração. Sem falar das diferenciações étnicas e raciais.
Quero terminar indicando só mais um exemplo de trabalho degradado: a crescente inclusão de crianças no mercado de trabalho global, nos países latino-americanos, asiáticos, africanos, bem como nos países centrais, como EUA, Inglaterra, Itália, Japão, sem falar na China, Índia etc.
Não importa que o trabalho adulto se torne supérfluo e que muitos milhões de homens e mulheres em idade de trabalho vivenciem o desemprego estrutural. Mas os meninos e meninas devem, desde muito cedo, fazer parte do ciclo produtivo: seu corpo brincante transfigura-se muito precocemente em corpo produtivo para o capital (Maurício da Silva).
Na produção de sisal, na indústria de calçados e confecções, no cultivo de algodão e cana, nas pedreiras, carvoarias e olarias, no trabalho doméstico, são inúmeros os espaços em que o trabalho infantil valoriza o capital.
Na indústria de tapeçaria da Índia, lembra Mike Davis, as crianças trabalham de cócoras em jornadas que chegam a 20 horas por dia. E na indústria do vidro, trabalham ao lado dos tanques com temperatura próxima de 1.800 graus centígrados ("The State of the World's Children - 1997", Unicef). Seriam, então, esses exemplos excrescências dentro de uma ordem societal preservadora do trabalho?
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RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 54, é professor titular de sociologia do trabalho do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e autor, entre outros livros, de "Os Sentidos do Trabalho".
quarta-feira, 30 de abril de 2008
terça-feira, 29 de abril de 2008
"A história das coisas" - a propósito do ambiente
A belíssima Bella Ciao
" Bella Ciao é uma canção tradicional da resistência italiana contra o fascismo e o nazismo durante a 2.ª guerra mundial. Desde aí, foram compostas inúmeras versões por vários cantores e grupos de várias nacionalidades.
No entanto, Bella Ciao ficou para sempre como um simbolo de luta e resistência.
Hoje vivemos novamente tempos de luta e resistência. Contra a globalização. Contra o expansionismo imperialista traduzido em guerras, agressões e ingerências à soberania dos países. Contra o capitalismo e contra a sociedade desigual que este sistema quer forçosamente impôr-nos com uma distribuição da riqueza que produz uma pequena minoria milionária e uma maioria de muitos milhões de pobres, um sistema que tem na sua essência o velho modelo de exploradores e explorados.
Porque o tempo é de luta e resistência, aqui fica uma bonita versão de Bella Ciao pelos Modena City Ramblers.(para ouvir desligue primeiro o som da rádio ideal comum)
"
domingo, 27 de abril de 2008

sábado, 26 de abril de 2008
Cuidado, Sócrates falou verdade!

O primeiro-ministro defendeu, este sábado, o fim dos contratos colectivos de trabalho que «nunca caducam», considerando que são «um atraso de vida» e um factor de «bloqueamento» para a economia e para os trabalhadores. O Governo propôs que as convenções colectivas de trabalho caduquem ao fim de dez anos, prevendo um período posterior de um ano e meio para nova negociação. «Quero convencer-vos que esta é uma das mudanças mais importantes para Portugal e para o nosso futuro», começou por dizer José Sócrates num encontro com militantes socialistas, em Vila Franca de Xira, para apresentar a proposta do Governo para a revisão do Código do Trabalho.
Ora, realmente, os contratos de trabalho são um atraso de vida para os patrões, quer dizer, um atraso nos seus lucros. É realmente uma chatice. Um bloqueamento pois claro. O que Sócrates gostaria era que nem houvesse contratos colectivos. Assim não havia bloqueamento nenhum e os patrões poderiam recomeçar com as praças de jorna.
E continua a falar verdade, este código é uma das mudanças mais importantes. Ele merece uma luta a sério!
Quando a situação for de ascenso do movimento popular Sócrates, ou outro parecido, vai gritar que os contratos colectivos são um avanço de vida que não podem estar sempre a ser revistos; a favor dos trabalhadores, claro.
quinta-feira, 24 de abril de 2008
25 de Abril SEMPRE
terça-feira, 22 de abril de 2008
sábado, 19 de abril de 2008
Vagina revolucionária contra o pénis burguês?

Latuff é o cartunista da revolução."
quarta-feira, 16 de abril de 2008
Ainda a polémica entrevista de Jerónimo Sousa sobre Angola

14-Abr-2008
A entrevista sobre Angola, dada por Jerónimo de Sousa ao "Avante" de 10 de Abril de 2008, merece uma séria discordância da nossa parte.É extraordinário como se consegue analisar a sociedade angolana sem um olhar mais objectivo sobre os conteúdos do regime, do poder, da relação entre as pessoas, entre as classes... sem sequer um olhar sobre as condições de luta dos trabalhadores angolanos ou, tão só, sobre as mais elementares condições do exercício democrático e o papel do Estado. Era difícil fazer pior.Opinião de Alberto Matos, Jorge Silva (Juca) e Victor Franco.
Nesse olhar sobre a sociedade angolana vê-se, à vista larga, a consolidação de uma burguesia através da pilhagem dos recursos minerais e energéticos, da privatização (usurpação do património estatal) que, interligada com monopólios e empresas transnacionais, assume a "naturalidade" de um capitalismo que se quer modernizar violenta e rapidamente.
À cabeça dessa clique dirigente estão dirigentes do MPLA e das Forças Armadas, com especial destaque para Isabel dos Santos, a filha do homem que há 29 anos domina Angola. Isabel recebeu, recentemente, uma mina de diamantes como prenda de anos e o canal 2 da RTA, como prenda do mês; controla empresas na hotelaria e nas telecomunicações; está associada ao BES e ao Amorim; está lançada nos biocombustíveis com a Green Cyber e Pedro Sampaio Nunes para uma biorefinaria em Sines; controla muitas dezenas de milhares de hectares para produção de óleo de palma no seu país e, muito mais... Isabel dos Santos é um exemplo da neo-burguesia de Luanda: negoceia com empresas portuguesas, chinesas, israelitas, russas, americanas, francesas.... Uma burguesia sem complexos, ou, como diz Jerónimo de Sousa, os angolanos "procuram novos amigos".
"A corrupção é um retrato de um grupo social que se tem vindo a constituir" disse Pepetela, acertadamente.
O Estado angolano é pois um instrumento nesse processo. A elite que o controla persegue sindicalistas, lutadores sociais, criminaliza os protestos e a oposição política. Esta elite aceita a escravização dos trabalhadores dos diamantes, banaliza os salários em atraso, expulsa centenas de milhares de pobres das suas casas para especular com os terrenos e, para se proteger, incentiva a violação dos direitos humanos pelas forças armadas e policiais. Um Estado de uma elite que censura as músicas e as letras opositoras, que se revê na CARAS e na gente bonita das festas do Mussulo, mas desconhece 4 milhões de pessoas a morar nos musseques de barracas de Luanda. Uma elite que recorre a exércitos privados, à violência aberta e até ao rapto dos adversários.
O Estado angolano não tem, praticamente, papel social. Uma em cada quatro crianças morre antes dos 5 anos. Enquanto a neo-burguesia acumula vertiginosamente riqueza, muitas vezes transferida para paraísos fiscais, um milhão de pessoas precisa dos alimentos do Programa Alimentar Mundial. Apesar do PIB crescer 18% - um recorde mundial de meter inveja a "tigres asiáticos", inclusive à China que é hoje um dos maiores investidores em Angola - o desemprego atinge os 80% e o país é o 12.º mais pobre do mundo. A Sida cresce continuamente. A cólera e o paludismo persistem.
"O direito à saúde e à habitação são negados pelo estado social das coisas", canta o rapper MCK.
Como disse Marx "historicamente o capitalismo nasceu com as mãos sujas de sangue". Angola segue-lhe os passos duma acumulação primitiva devoradora da força de trabalho e dum povo exaurido por quatro décadas de guerra.
Percebe-se pois a dificuldade de Jerónimo de Sousa: "no plano ideológico não é fácil traduzir" que o MPLA seja "uma força progressista de esquerda". Percebe-se a sua dificuldade entre a "flexibilidade táctica e estratégica", traduzida no contorcionismo das palavras: Angola "tem economia de mercado, mas não quer sociedade de mercado". Realmente não é fácil. Talvez fosse melhor perguntar ao "camarada" Hu Jintao!
A emergente burguesia angolana está minimamente consolidada e, embora sobressaltada com as más novas do amigo Mugabe, acha-se agora com condições mais seguras de promover as eleições interrompidas pela guerra em 1992 e que, alcançada a paz em 2002, foi sucessivamente adiando. Fala-se que as legislativas serão em 2008 e as presidenciais em 2009. Fala-se... Fala-se que o "amigo" Dos Santos será recandidato a mais um mandato. E por que não? Afinal, Jerónimo de Sousa até nem é pela limitação de mandatos...
Alberto Matos, Jorge Silva (Juca) e Victor Franco "
Santana Castilho desanca no acordo sindicatos-ministra
"É verdade que os sindicatos ganharam uns trocos. Mas o lance era para devolução integral: da dignidade perdidaComecemos por uma questão semântica: entendimento e acordo são vocábulos sem diferenças, do ponto de vista da significação, que justifiquem o esforço da Plataforma Sindical para os distinguir. Vão a um bom dicionário. No contexto que "aproximou" sindicatos e ministério, são sinónimos. Mas se essa fosse a questão, então capitular dirimia o conflito. E não estou a ser irónico. Voltem a um bom dicionário.Posto isto, passemos ao que importa. ministério e sindicatos acertaram, concertaram sob determinadas condições. No fim, os sindicatos cantaram vitória. Permitam-me que invoque alguns argumentos para desejar que os sindicatos não voltem a ter outra vitória como esta.A actuação política deste Governo e desta ministra produziu diplomas (estatuto de carreira, avaliação do desempenho, gestão das escolas e estatuto do aluno) que envergonham aquisições civilizacionais mínimas da nossa sociedade. A rede propagandística que montaram procurou denegrir os professores por forma antes inimaginável. Cortar, vergar, fechar foram desígnios que os obcecaram. Reduziram salários e escravizaram com trabalho inútil. Burocratizaram criminosamente. Secaram o interior, fechando escolas aos milhares. Manipularam estatísticas. Abandalharam o ensino com a ânsia de diminuir o insucesso. Chamaram profissional a uma espécie de ensino cuja missão é reter na escola, a qualquer preço, os jovens que a abandonavam precocemente. Contrataram crianças para promover produtos inúteis. Aliciaram pais com a mistificação da escola a tempo inteiro ( que sociedade é esta em que os pais não têm tempo para estar com os filhos? Em que crianças passam 39 horas por semana encerradas numa escola e se aponta como progresso reproduzir o esquema no secundário, mas elevando a fasquia para as 50 horas?). Foram desumanos com professores nas vascas da morte e usaram e deitaram fora milhares de professores doentes (depois de garantir no Parlamento que não o fariam). Promoveram a maior iniquidade de que guardo recordação com o deplorável concurso de titulares. Enganaram miseravelmente os jovens candidatos a professores e avacalharam as instituições de ensino superior com a prova de acesso à profissão. Perseguiram. Chamaram a polícia. Incitaram e premiaram a bufaria. Desrespeitaram impunemente a lei que eles próprios produziram. Driblaram as leis fundamentais do país. Com grande despudor político, passaram sem mossa por sucessivas condenações em tribunais. Fizeram da imposição norma e desrespeitaram continuadamente a negociação sindical. Reduziram a metade os gastos com a Educação, por referência ao PIB. No que era essencial, no que aumentaria a qualidade do ensino, não tocaram, a não ser, uma vez mais, para cortar e diminuir a exigência e castrar o que faz pensar e questionar. A questão que se põe é esta: por que razão esta gente, que tanto mal tem feito ao país e à Escola, que odeia os professores, que espezinhou qualquer discussão ou concertação séria, que sempre permaneceu irredutível na sua arrogância de quero, posso e mando, de repente, decidiu "aproximar-se" dos sindicatos? A resposta é evidente: porque os 100.000 professores na rua, a 8 de Março, provocaram danos. Porque a campanha eleitoral começou a reparar os estragos para garantir mais quatro anos. O tempo e a oportunidade política da plataforma sindical aconselhava uma firmeza que claudicou. Porque quem estava em posição de impor contemporizou. Porque de um dia para o outro se esqueceram as exigências da véspera. Porque quem demandou a lei em tribunal pactuou com uma farsa legal. Porque quem acusou de chantagem acabou a negociar com o chantagista. Porque quem teve nos braços uma unidade de professores nunca vista pensou pouco sobre os riscos de a pôr em causa. É verdade que os sindicatos ganharam uns trocos. Mas o lance não era para trocos. Era para devolução integral: da dignidade perdida. Aqui chegados, permitam-me a achega: pior que isto é não serem capazes de superar isto. E lembrem-se de Pirro, quando agradeceu a felicitação pela vitória: " Mais uma vitória como esta e estou perdido". "
Professor do ensino superior
Liberdade para José Diogo do tractor

terça-feira, 15 de abril de 2008
A catástrofe da esquerda italiana
Os resultados italianos são uma completa catástrofe para a esquerda. Catástrofe é a palavra certa. A Esquerda Arco Íris (que juntava a Refundação Comunista, o Partido dos Comunista Italianos, os Verdes e a Esquerda Democrática) que somava cerca de 100 deputados e valia mais de 10% passa a ZERO deputados pois ao apenas ter 3% não consegue passar a cláusula barreira de 4%. No Senado ainda pior, a cláusula de barreira é de 8% e todos os senadores "arderam". Bertinotti não tem de que se queixar - ele mesmo tinha dito que se a esquerda adopta-se a política reformista assumia a sua morte (leia aqui). Agora demitiu-se. Bertinotti não perdeu só o copyright - perdeu exactamente tudo.
A Esquerda Crítica que se tinha demarcado desta solução e assumiu um projecto próprio discordante de Bertinotti ficou-se pelos 0,5%. Mas ao menos saiu do pântano conciliador.
É a falência total da esquerda quando esta assume a política social-liberal. Quando a esquerda "com medo da direita" faz a política desta só lhe abre as portas. O caso italiano é tanto mais significativo quanto é do países da Europa que mais pujança demonstrava na esquerda e nos movimentos sociais.
Depois da Alemanha, da Grécia, da França... agora da Itália a direita cavalga por essa Europa. O que só podem ser maus pronuncios para uma Europa mais fortaleza, mais reaccionária, mais anti-democrática. Não sopram ventos de feição!
A esquerda europeia, em particular o PEE, tem reflexões a fazer.
Leia as opiniões da Esquerda Crítica aqui.
segunda-feira, 14 de abril de 2008
Vitória Pírrica? (sobre o acordo dos profs)
Por João Vasconcelos
O Memorando de Entendimento entre o Ministério da Educação e a Plataforma Sindical dos Professores significará uma grande vitória destes últimos? Grande não, mas sim uma pequena vitória! E para o governo não foi uma grande mas sim um significativo recuo, uma pequena derrota. Que se transformará numa grande vitória de Sócrates e da Ministra e numa profunda e dramática derrota dos professores, se estes não continuarem vigilantes e mobilizados.
Afinal o que se conseguiu com o Memorando? Muito pouco, tendo em conta que vieram 100 mil professores para a rua. A Marcha da Indignação do passado dia 8 de Março é a prova provada do descontentamento e da revolta de uma classe profissional como nunca se viu neste país. E tudo levava a crer que os professores estavam dispostos a continuar uma luta que só agora a iniciaram em força. Ficamos com um sentimento de vazio e com uma sensação de que era possível ir muito mais além. Conseguiram os professores uma vitória pírrica? Se assim foi, vão ser, nos próximos tempos, inevitável e clamorosamente derrotados. E a Escola Pública vai ser, inexoravelmente, destruída.
Um dos grandes objectivos da Marcha que era a suspensão do processo de avaliação até final do ano lectivo não foi conseguido, muito embora a avaliação este ano só contemple os professores contratados e por meio de um processo simplificado. O ME conseguiu impor a chantagem de que, se não fossem avaliados, os contratados não teriam os seus contratos renovados. Por outro lado, e isto é o mais grave, o modelo de avaliação previsto pelo ME, vai ser aplicado a todos os professores no próximo ano lectivo, não havendo lugar a experimentação. Só nos meses de Junho e Julho de 2009 – como prevê o Memorando – é que haverá “um processo negocial com as organizações sindicais, com vista à introdução de eventuais modificações ou alterações” do modelo. Mas então não se trata de um modelo de avaliação altamente burocrático, injusto, punitivo, subjectivo, arbitrário, economicista, que vai manter as quotas e assente numa estrutura de carreira dividida em duas categorias? É este o cerne da questão – o Estatuto da Carreira Docente tem de ser revisto, alterado, revogado e os professores jamais poderão aceitar estarem divididos, de forma arbitrária, em duas categorias. O grito dos professores mais ouvido foi: “categoria só há uma, a de professor e mais nenhuma”. Disto não podemos abdicar.
Que força terá a comissão paritária proposta pela Plataforma Sindical para introduzir alterações ao modelo de avaliação, quando este é o centro da discórdia e com os professores já desmobilizados? O ME vai querer manter tudo como está e quando sentir a desmobilização e a descrença no seio da classe docente não terá contemplações. Sabemos como Sócrates é teimoso e como odeia os professores, os sindicatos e a Escola Pública. E no final, batendo com as mão no peito, contará com um importante trunfo eleitoral, conseguido à custa de “sangue, suor e lágrimas” dizendo: – “fiz a avaliação dos professores!”. Não podemos cair nesta armadilha.
O novo modelo de gestão e administração das escolas vai ser imposto, embora adiado até 30 de Setembro. Trata-se de uma grave derrota para todos os professores! Significa isto que as escolas vão passar a ter os Directores já no próximo ano lectivo, como estava previsto, e vão ser eles que vão nomear os Coordenadores a seu belo prazer, que vão avaliar, que vão ter um poder unipessoal e discricionário e outras coisas mais. E o Memorando, implicitamente, parece aceitar o novo modelo de gestão – isto é inaceitável!
Outro ponto inaceitável, previsto no Memorando, é o facto de se prever a criação de um novo escalão remuneratório no topo da carreira dos professores titulares, quando se sabe que muito poucos ascenderão a titulares e que a esmagadora maioria continuará a “patinar” na carreira de professor. Talvez fosse admissível a criação de um novo escalão, mas no topo da carreira de professor, beneficiando assim aqueles que ganham menos. Esta disposição, além de beneficiar quem mais ganha, aceita, de forma implícita, a divisão em professores titulares e não titulares, o que é inadmissível.
A aceitação da divisão da carreira em duas categorias também está previsto no ponto 6 do Memorando, quando se prevê a negociação para a “abertura dos concursos para o recrutamento de professores titulares”. Ainda neste ponto está prevista a negociação para o próximo ano lectivo de “critérios para a definição de um crédito de horas destinado à concretização da avaliação de desempenho dos professores, das condições de horário e remunerações dos membros das direcções executivas e dos coordenadores dos departamentos curriculares”, o que se afigura bastante perigoso, particularmente no que concerne às remunerações. Afinal quem mais ganha vai passar a ganhar mais e os outros, aqueles que mais aulas vão dar – a grande maioria – continuarão a ser os mais penalizados. Isto vai criar tremendas divisões e rivalidades no seio da classe docente. O ME jogou esta cartada e a Plataforma nunca devia ter aceite esta norma. Trata-se de um “rebuçado envenenado” que vai degradar irremediavelmente o ambiente no seio dos professores e da Escola Pública.
Sobre a participação em acções de formação contínua para o próximo ano lectivo, “desde que exista oferta financiada nos termos legais”, nada contém o Memorando, embora esta seja uma norma para este ano. Também não se poderá aceitar que os professores, no seu processo de avaliação, sejam obrigados a frequentar acções de formação contínua pagando essas mesmas acções dos seus bolsos.
Claro que o Memorando contém pontos positivos, como seja, particularmente, a aplicação de procedimentos de avaliação simplificados e universais este ano (o ME já antes aceitava os procedimentos simplificados aos contratados e aos que mudassem de escalão), a instituição de normas para minimizar, ou ultrapassar a atribuição de classificações de Regular ou Insuficiente, a definição de um número de horas da componente não lectiva compreendendo o tempo de trabalho individual e o tempo para reuniões, “não podendo ser inferior a 8 horas para os docentes da educação pré-escolar e 1º ciclo do ensino básico e para os outros ciclos do ensino básico e ensino secundário, 10 horas para os docentes com menos de 100 alunos e 11 horas para os docentes com 100 ou mais alunos” e, mesmo, a constituição da tal “comissão paritária”.
Os professores não querem uma vitória de Pirro, querem uma vitória mais alargada. Assim terão de continuar a lutar no Dia D, no dia 14 e noutros dias que se seguem, mostrando à Plataforma Sindical que é possível obter conquistas bem mais significativas, que é possível obter mais e melhores resultados neste momento. A Plataforma deverá continuar a manter a unidade e continuar a ser a porta-voz dos anseios e reivindicações dos professores. Um passo precipitado ou mal calculado poderá deitar tudo a perder, depois será tarde demais para voltar atrás. Por mim não assinava o acordo e continuava com a luta. Há razões muito fortes para tal. Temos a força de 100 mil professores na rua. Este é o nosso ponto forte e, simultaneamente, o ponto fraco de Sócrates, de Maria de Lurdes e do governo.
Esta é a minha posição.
(*) Professor na Escola E. B. 2, 3 D. Martinho de Castelo Branco-Portimão




