segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Upgrade da revolução?


As comemorações dos 90 anos da Revolução de Outubro trouxeram aos blogues e à imprensa muita informação, opinião diversa desde os assumidamente comunistas até outros cidadãos de esquerda. Vale aqui afirmar todo o extraordinário significado da Revolução de Outubro, todo o seu positivo impacto mundial, todo o seu galvanizar de uma classe trabalhadora que ganhou consciência de si.
Muito foi dito e muito ficará por dizer. É aqui que, partindo da referência do pensamento marxista, se pode colocar algo mais. Um pequeno contributo, por exemplo, partindo da reflexão sobre o problema do poder – ou seja, qual o poder que os comunistas hoje defendem e qual o seu posicionamento sobre o poder pós Outubro.
Para isso recomenda-se a leitura de “Do Estado, Poder Soviético”, de Lenine.
Começando por afirmar a especificidade russa, o momento concreto e o estado de guerra, é a partir desse livro que se sugerem apenas algumas equações, muito focadas, cuja solução merece trato:
- Poderemos dizer em Portugal que o carácter da nossa democracia (regime que desejaremos implantar) consista, ”primeiro, em que os eleitores são as massas trabalhadoras e exploradas, ficando excluída a burguesia; segundo, no desaparecimento de todas as formalidades e restrições burocráticas nas eleições, e em que são as próprias massas que determinam as normas e o prazo para as eleições, gozando de plena liberdade para revogar os eleitos; terceiro, em que se cria a melhor organização de massas da vanguarda trabalhadora, do proletariado da grande indústria, a qual lhe permite dirigir as mais vastas massas de explorados, incorporá-las numa vida política independente e educá-las politicamente baseando-se na sua própria experiência…”
Os comunistas portugueses defendem todo o poder aos sovietes, exclusão da burguesia do voto? Como se materializa num novo poder as contradições de classe? Anulam-se proibindo a sua expressão eleitoral?
- Na complexidade do actual Estado, poderemos afirmar que “o nosso objectivo é conseguir que cada trabalhador, depois de cumprir a sua tarefa de oito horas de trabalho produtivo, desempenhe de modo gratuito as funções estatais”. Até porque “só nela reside a garantia da consolidação definitiva do socialismo”?
- A “unidade eleitoral primária e a célula fundamental da edificação do Estado é, com o poder sociético, não a circunscrição territorial, mas a unidade económica de produção (a fábrica)”?

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Bertinotti perdeu o copyright


Um interessante texto circula no Bloco de Esquerda. Ele argumenta que "o facto de sermos parceiros na esquerda europeia, de ser importante tomar posição, de se verificar que o governo italiano caminha para o desastre - e que isso tem causas - motiva o expressar de uma breve reflexão que foi enviada à Mesa Nacional do Bloco".

É o trabalho que abaixo reproduzimos.

Luís Fazenda, Carlos Santos e Victor Franco


No final de 2002, o Secretário do Partido da Refundação Comunista de Itália, Fausto Bertinotti, elaborou e divulgou as suas "Quinze Teses para uma Esquerda Alternativa Europeia". Trata-se de uma sequência de enunciados e conclusões, em menos de três páginas. A publicação dessas Teses foi simultânea à reunião em Florença de muitos partidos de esquerda da Europa, sob os auspícios da Rifondazione. O leque ideológico dos assistentes era largo, e a oportunidade não podia ser melhor na véspera do 1º Fórum Social Europeu.
O texto de Bertinotti exerceu uma influência marcante no processo de aproximação e convergência de várias esquerdas no velho continente, apostadas numa luta política comum, sem prejuízo e para além das marcas de identidade de cada uma delas. O movimento e os debates que se lhe seguiram foram um impulso à cooperação europeia, até mais do que a forma a que deu lugar, a European Left (E.L.), hoje congelada a baixíssima temperatura. Vale a pena revisitar esse prontuário a usar e perguntar à actualidade o que pensa dele.
1. Bertinotti, em 2002, apoia-se na análise da globalização capitalista para deduzir o alargamento do campo de contra-hegemonia e de alternativa. "O nascimento e desenvolvimento do movimento de crítica contra a globalização gera um fenómeno de valor estratégico". Esperava-se, e bem, revelar "o elo existente entre o modelo social neo-liberal e a guerra da globalização". O "renascimento da política" passava por aqui. E, de um modo particular, a refundação comunista.
Esta visão estratégica provou, e prova, estar acertada. Desde logo pelo surto do "complexo Iraque" na política mundial cavando o isolamento dos EUA, pelas vagas de protesto social que acelerou em muitas regiões, em especial na América Latina. O sistema de guerra imperialista é o paroxismo do regime global dominante. Como é simples de perceber, o actual cerco à ditadura discordante do Irão, apoiado num argumento de autoridade idêntico ao utilizado no Iraque, quem tem as armas, alimenta o regresso de um movimento mundial pela paz, por sua vez gerador de mais profunda contestação ao neo-liberalismo.
Entretanto, o PRC substituiu a visão estratégica de afrontamento da Casa Branca e satélites por uma deriva de aceitação do "multilateralismo negociado" dos conflitos internacionais. Com várias consequências negativas: obscurece as causas do conflito imperialista, o seu domínio totalizante sob qualquer pretexto, espalha a ilusão de uma "América Democrática" que se seguirá a Bush, e só deita sal nas feridas do mundo. O processo do Império, à falta de rupturas essenciais nos EUA e na Europa, mostrará que o multilateralismo não passa de um carnaval de época, destinado a confundir a opinião pública mundial. Do ponto de vista particular da "refundação do comunismo" trata-se até de uma adaptação inexplicável ao neoliberalismo, mesmo que em versão mitigada: isso é simplesmente uma recuperação burguesa de um pensamento socialista.
2. Espaço à Europa. Bertinotti sublinhava em 2002 que "no seio da política mundial a Europa é, para nós, a dimensão mínima necessária para o renascimento da política das classes populares". Pensava então que o destino europeu se ligava à ultrapassagem da crise da política pela participação das classes subalternas, por um "salto em frente" que poderia agudizar a crise da dominação da globalização capitalista. F.B. teve até o cuidado, fundado, de se demarcar das fragilidades democráticas da Europa actual, porém vincando bem a cultura enriquecida pela luta de classes do continente europeu.
Essa visão levou a um processo, não isento de contradições, de rejeição total do modelo de instituições da União Europeia, de oposição à prevista "Constituição Europeia", em nome de um processo democrático dos povos para outra Carta da Europa. Só esse processo tornou possível que o congresso da fundação da EL tivesse tomado essa posição por unanimidade, em consonância com os movimentos sociais mais expressivos do continente, com excepção da cúpula da Confederação Europeia de Sindicatos. Em consequência, todas as forças da EL reclamaram o referendo para rejeitar o Tratado Constitucional.
Hoje, trata-se de fazer o mesmo pelo Tratado Reformador, irmão gémeo do anterior. Exigir o referendo. Pelas mesmíssimas razões. Sem tirar nem pôr. Contudo, o espectro do jogo da ratificação parlamentar ronda a EL, e isso nada tem a ver com o renascimento da política das classes populares.
3. A crise estratégica do reformismo. Foi tema destas "Quinze Teses" e de muitos outros escritos. As intervenções de 2002/4 de Bertinotti recordam essa zona dura, violenta até, de acusações aos partidos sociais-democratas e afins, culpados de terem "contribuído para a eleição de forças de direita nos EUA e na Europa" no que se chamava "a segunda fase da globalização". F.B. asseverava: "Nós sabemos que as ondas de choque contraditórias dos novos processos mundiais, por um lado a globalização capitalista e por outro lado aquele que propõe que um outro mundo é possível (e necessário) põem dramaticamente em crise a hipótese reformista (…)".
Apesar do autor chamar a atenção de que as forças reformistas se dividem, consolidava a evidência de que essas forças estavam, sob a pressão da globalização, rendidas ao neo-liberalismo.
Ora a "hipótese reformista" é o que governa agora Portugal, Espanha, Inglaterra, Suécia, até a coligação na Alemanha, e a própria Itália, já não falando de outros casos menos distintivos. Não é difícil verificar o avanço da NATO e a retirada de direitos sociais em todos esses países. Não há "hipótese reformista" porque vingou em toda a linha o modelo liberal e "o carácter fundamentalmente regressivo" da globalização capitalista.
A tese demarcatória era e é correcta. Aplicada à Itália de hoje torna a posição do PRC uma caricatura.
Não podemos, contudo, diminuir a importância do assunto. A autoridade dos partidos, a força dos movimentos sociais, não irromperam apenas das contradições objectivas com os interesses das "classes subalternas" mas também do capital de esperança das alternativas – essa é a força subjectiva, da consciência social. A participação gestionária num governo liberal, de "centro-esquerda", pode até ser justificada para impedir males maiores às classes populares mas comete o crime de roubar a esperança numa alternativa social. Umas migalhas não fazem a dignidade numa luta de opostos. Ao acentuar-se a crise estratégica do reformismo mantinha-se um apelo ao reagrupamento das esquerdas políticas e sociais. O PRC ao fazer parte da crise do reformismo produz desmembramento do espaço transformador, divisões, atraso na consciência social.
4. Em 2002, FB entendia não fazerem sentido alianças de governo com os reformistas. Nas "Teses" diz-se expressamente: "O facto de que possa construir-se uma transição procurando uma aliança de governo com os reformistas, facto fixado por uma identidade histórica herdada do passado, sofre um golpe mortal na situação actual". O autor juntava duas reflexões a esta conclusão. A primeira, as forças comunistas não se definiam mais pelo confronto com a social-democracia, isso não era mais um debate na esquerda. Segunda, a crise da esquerda reformista juntava-se à crise dos grupos comunistas tradicionais. O epílogo desta linha de pensamento não podia ser mais categórico: "Sabíamos que a refundação era necessária para reconstruir uma perspectiva revolucionária. Agora damo-nos conta que ela é necessária mesmo para existir". Com tais palavras a participação do PRC no governo Prodi soa a epitáfio.
O afastamento de governos compostos por forças gestoras do modelo liberal, embora reclamando-se de centro-esquerda, seria até uma oportunidade de crescimento da perspectiva refundacionista. E isto porquê? Segundo Bertinotti, não sendo possível qualquer aliança de governo: "O motor para a mudança é então a constituição de um novo movimento operário. A Europa é um dos lugares privilegiados para este tipo de transformação da sociedade capitalista dos anos 2000. É obrigatoriamente o nosso terreno de acção privilegiado".
Quando o ministro do Trabalho do governo italiano, Paolo Ferrero, discute por estes dias com os sindicatos o aumento da idade da reforma dos trabalhadores e a desvalorização das pensões, trazendo na gravata a sua qualidade de dirigente do PRC, não pode haver maior divórcio entre a tese e a vida. O oportunismo assume o zénite. O terreno de acção mudou para o partido. Mas o terreno de acção do movimento operário far-se-á, apesar do PRC, como se vê pela contestação da FIOM (Federação dos Metalúrgicos) às medidas do governo Prodi.
5. Está na altura da esquerda alternativa proceder a clarificações. Não se deve ser adepto de capelas e seitas que embargam o debate entre as esquerdas europeias. Em todo o caso, isso não significa escamoteamento de posições políticas, ponderadas e abertas. A esquerda alternativa tem avançado por reagrupamentos e clarificações. A cada clivagem certa tem correspondido um avanço num movimento plural. Presume-se que o PRC tenha regressado ao perfil e à política habitual do que apelidavam de grupos comunistas tradicionais, e nem de todos. Seguramente, a política não é feita por exorcismos, mas por escolhas. Para quem nunca subscreveu várias teses de Bertinotti, as de 2002 eram suficientes para uma caminhada nova da esquerda alternativa europeia.
As "Quinze Teses", então afirmadas, estão ainda hoje válidas. Lamentavelmente, o seu autor perdeu os respectivos direitos. Nós mantemos essa escolha e trazemo-la ao crivo da crítica. Bertinotti perdeu o copyright.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Nunca Mais !

Ricardo Antunes
Nunca mais na história deste país o pícaro e o trágico deverão apresentar-se em nome da esquerda
NUNCA ANTES na história deste país se elegera um presidente de origem operária e nunca antes tantas forças de esquerda tinham conseguido chegar ao Palácio do Planalto. Nunca antes na história deste país um candidato de origem popular participara de cinco eleições presidenciais, colhera três derrotas consecutivas e duas vitórias seguidas, contabilizando tantos milhões de votos. Nunca antes na história deste país um partido de esquerda -o Partido dos Trabalhadores- tivera tanta chance e legitimidade para começar a desmontar as sólidas engrenagens da tragédia brasileira e nunca defendera tanto as mudanças sociais e políticas dotadas de valores éticos e morais que travassem e obstassem a corrupção do Estado patrimonial brasileiro. Nunca antes na história deste país um presidente da República fora tanto a imagem e a semelhança do povo brasileiro. Nunca antes na história deste país um partido de esquerda (no governo) implementara uma política tão assistencialista -que nem sequer arranhou o verniz da nossa barbárie- e tão rapidamente se convertera em partido da ordem. Nunca antes na história deste país uma liderança política de origem operária e sindical sofrera um transformismo tão acentuado, que lhe desfigurou a própria alma. Nunca antes na história deste país o dito virou não dito. A antiga e bravia oposição virara tão serviçal situação e fora tão pateticamente tragada pela corrupção. O velho e moderado PCB saiu muito mais íntegro na longa história do chamado Partidão. Nunca antes na história deste país um governo e o comando de seu partido -que nasceu e se definia como sendo de esquerda- tinham arquitetado um projeto de corrupção do tamanho do mensalão. Até então, esse era um atributo próprio das direitas. Nunca antes na história deste país um presidente tão personalista e centralizador, tendo seu entorno mergulhado num lamaçal -ou pântano-, alegara tão singelo desconhecimento do que se passava na ante-sala de seu gabinete, mesmo sabendo que ele sempre tivera o controle pleno de tudo o que se decidia na cúpula de seu partido. Nunca antes na história deste país um governo de "esquerda" fora tão generoso com os lucros dos bancos e dos grandes capitais, tão camarada com os usineiros e por demais cordial com o agronegócios. Nunca antes na história deste país um governo que se originara de um partido de esquerda e de oposição erigira um modelo econômico reiteradamente elogiado pelo FMI e fora tão bom seguidor das políticas gestadas nos estranhos laboratórios do Banco Mundial. Nunca antes na história deste país o governo reduzira, em tão pouco tempo, o escandaloso número de miseráveis. Mas também nunca se aceitara que a mensuração da miséria brasileira estivesse próxima do patamar abjeto de R$ 125 per capita, menos de um terço do minguado e arrochado salário mínimo do outrora denunciador do "arrocho salarial". Nunca antes na história deste país um presidente, cuja liderança nasceu nas autênticas lutas sociais e políticas de oposição, ficara tão amigo do bárbaro presidente norte-americano e tivera tanta coragem de dizer que "nunca foi de esquerda". Nunca antes na história deste país um presidente da República, em meio a tanta mudez, falara tão diretamente com o povo. Algo próximo ocorrera somente com o velho Getúlio, em longo período, ou com o estranho e bizarro Jânio, em breve tempo. Ou ainda com o patético Collor, de modo quase relâmpago. Nunca antes na história deste país se tornaram tão acentuadas a falência e a degradação do poder parlamentar. Nunca mais na história deste país o pícaro e o trágico deverão apresentar-se em nome da esquerda, na face mais visível de um governo cujo principal partido que o sustenta se originara em tantas e autênticas lutas sociais e políticas.
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Artigo publicado hoje no Folha de São Paulo
RICARDO LUIZ COLTRO ANTUNES, 54, é professor titular de sociologia do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Unicamp e autor, entre outros livros, de "Uma Esquerda fora do Lugar".

domingo, 28 de outubro de 2007

Será que a SIBS não devia ser nacionalizada?

O recente apagão da SIBS, mais um, pode solicitar uma pergunta: será que a SIBS não devia ser nacionalizada?
A pergunta pode parecer esquisita mas a verdade é que esta empresa presta um serviço público sobre o qual o Estado não parece ter controlo. É verdade que a Caixa Geral de Depósitos tem 21,60% do capital social, mas como temos visto a política CGD também não tem sido de serviço público. A não prestação desse vital serviço público lesa fortemente as pessoas - basta ver o que aconteceu com os apagões da rede multibanco.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

domingo, 21 de outubro de 2007

O PCP, o BE e o Tratado Reformador

A esquerda está a reagir de forma diversa ao Tratado Reformador.
Uns insistem na perda de poder dos países pequenos com o novo método de votação por duplas maiorias, na perda de deputados, na perda das presidências rotativas. Partindo de uma visão nacionalista Portugal perdeu, perdeu independência, perdeu soberania.
Outros reagem insistindo na origem anti-democrática do Tratado, que esconde do povo a sua real substância e faz da vacuidade socrática a unidade das burguesias europeias; utilizem elas partidos socialistas ou conservadores como correia de transmissão.
Em verdade a ausência de democracia marca o ponto fraco destas burguesias. Antes a derrota imposta pelos povos francês e holandês só era possível prosseguir sem democracia.
A democracia convoca a discussão e a responsabilidade popular, convoca as inteligências e traz a luta de classes para o centro do conflito – porque os políticos não são todos os mesmos. É um bom ponto de partida para discutir o Banco Central Europeu e as taxas de juro que estão a ser impostas, um exército europeu e as guerras imperialistas, a flexi-segurança e a destruição dos direitos dos trabalhadores…
Insistir na vertente nacional pode arregimentar gente saudosa do tempo do escudo e da existência de fronteiras em Vilar Formoso, pode diminuir espaços para que a extrema-direita não roube votos ao PCP, pode até fazer renascer ideias de saída da UE.
Na visão de cada partido, em particular PCP e BE, a oposição a este Tratado faz-se por argumentos diferentes, mas uma coisa é certa: existe um mercado único, uma burguesia europeia entrelaçada numa burguesia mundial, existe uma moeda única e um banco central. Também por isso é preciso existir um combate europeu ao capital, um combate europeu ao neoliberalismo, um combate europeu que junte forças sociais e partidos numa acumulação de forças.
Um combate que convoca os portugueses, para atacar no ponto mais fraco que a burguesia tem agora: a negação do referendo. A moção de censura que o BE anunciou é um a ideia positiva.

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

A saudação do PCP ao Partido Comunista da China

O Avante, desta quinta-feira, dá conta da saudação ao PCChinês:
«Ao XVII Congresso doPartido Comunista da China
Em nome dos comunistas portugueses, o Comité Central do Partido Comunista Português saúda calorosamente o XVII Congresso do Partido Comunista da China, formulando os melhores votos de sucesso aos seus trabalhos e à acção dos comunistas chineses em prol do desenvolvimento e progresso social, fortalecendo o objectivo proclamado da construção de uma sociedade socialista.«Estamos certos que o sucesso do processo de grandes transformações económicas, sociais, políticas e culturais na China, tornando já hoje a China um factor de primordial importância das relações internacionais, possui um inegável significado para a luta dos povos pela sua soberania e dignidade e é um contributo para a sua resistência à tentativa do imperialismo de reforçar a prática unilateralista e instaurar uma nova ordem mundial exploradora e totalitária.«Entendemos que no actual quadro internacional marcado por uma grande complexidade e acrescidas preocupações para os trabalhadores e os povos - quando se intensifica a escalada militarista e a inquietante ameaça de novas agressões e se multiplicam os perigos colocados à paz mundial -, assume uma renovada importância a necessidade do desenvolvimento e fortalecimento do relacionamento entre partidos comunistas e outras forças progressistas.«Em Portugal, deparamo-nos hoje com a mais violenta ofensiva contra as conquistas democráticas da revolução de Abril de 1974 e os direitos dos trabalhadores. Uma política de direita conduzida pelo Governo do PS que, agravando as desigualdades e injustiças sociais, fazendo disparar a precariedade e o desemprego, limitando e ameaçando o exercício de liberdades fundamentais e cavando a dependência económica de Portugal, tem vindo a afectar o nível de vida dos trabalhadores e populações, ao mesmo tempo que beneficia com escandalosos lucros o sector financeiro e o capital monopolista. «Não obstante as dificuldades que a situação apresenta, o PCP - profundamente empenhado na luta de massas e na ligação aos trabalhadores e às populações -, reforça-se no plano orgânico e na sua influência social e intervenção institucional. Vemos o reforço do Partido como condição fundamental para a mudança de rumo político no país e a afirmação do nosso projecto de uma democracia avançada para Portugal, que garanta o progresso social e a independência nacional, aproximando o horizonte da transformação socialista, iniciada há precisamente 90 anos com a Revolução de Outubro.«Reiterando o desejo de maiores êxitos aos comunistas, aos trabalhadores e ao povo chinês e confirmando a vontade de aprofundar as relações de amizade e cooperação entre o PCP e o PCC, enviamo-vos as nossas fraternais saudações.Outubro de 2007O Comité Central doPartido Comunista Português».
  1. O PC Chinês está a trabalhar para uma sociedade socialista? Então o que caracteriza o socialismo é a brutal exploração e repressão da classe operária?
  2. A China luta pela dignidade dos povos a nível mundial?
  3. A China está-se a opôr a esta ordem mundial e ao capitalismo?
  4. A China tem lutado pela paz mundial?

Realmente, nem a microscópico se consegue encontrar alguma coisa que se possa responder sim a qualquer uma das perguntas!

domingo, 30 de setembro de 2007

Menezes, Sarkozy e Sócrates

Menezes ganhou as eleições do PSD. Menezes inspira-se na política do presidente francês, mas este tem como ídolo José Sócrates. O que fica deste "trio amoroso"?
Para já Sócrates parece ganhar um aliado para a não realização de um referendo ao tratado europeu. Menezes não brinca em serviço, a estabilidade do plano neoliberal europeu em primeiro lugar. Parece que a regionalização e a revisão das leis eleitorais também farão consensos entre eles.
A oposição, como Menezes já prometeu, passará pela transferência total dos serviços públicos para o lucro privado. Sócrates abriu as portas, a direita - cada vez mais extrema - entra por elas.

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

Lula, o feitor do capitalismo cruel



Mais um excelente testemunho de Léo Lince publicado no site brasileiro http://www.correiocidadania.com.br





Feitor do capitalismo cruel

O presidente Lula é um pragmático do poder. Como tal, ele navega com desenvoltura no papel de governante mascate, inteiramente afinado com a lógica do horror econômico que, de algum tempo até esta parte, controla as alavancas do poder mundial. Pode ser vaiado em estádios de futebol, mas em platéia de banqueiros o aplauso é certo.

Na recente temporada européia, ele fez questão de reafirmar orgulhoso o seu empirismo radical (não se governa com princípios), ao mesmo tempo em que se ofereceu como artífice da subordinação da economia brasileira aos apetites mais destrutivos do modelo dominante no mundo dos negócios. A natureza e o mundo do trabalho que se cuidem, pois vem mais chumbo grosso.

Exemplo? Perguntado, durante encontro com empresários espanhóis, sobre as condições desumanas do trabalho dos cortadores de cana no Brasil, ele reagiu perguntando se o corte de cana seria mais “penoso” que trabalhar numa mina de carvão. O combustível que alimentou na Revolução Industrial o impulso primitivo do capitalismo, sem dúvida, foi produzido nas condições da mais brutal exploração do trabalho humano e de agressão à natureza. A julgar pelas notícias sobre os mortos por exaustão no inferno verde das plantações de cana de São Paulo, o etanol se candidata a repetir no século 21 a mesma trajetória de horrores.

Segundo o historiador Jacob Gorender a comparação feita pelo presidente “foi extremamente infeliz e injusta, não é digna de um líder de origem operária como ele”. No entanto, mais do que infeliz e injusta, o que a comparação tem de terrível é o seu caráter revelador. Nela, a brutalidade da exploração do trabalhador e a agressão ao meio ambiente aparecem como “destino”, fatalidade natural, e não como escolha política a partir de uma determinada correlação de forças sociais.

A bestial brutalidade da acumulação primitiva, que espantou o mundo e gerou reações como a “lei dos pobres” na Inglaterra, seguida de outras propostas que marcaram o processo civilizatório (filantropia social, sindicalismo, caixas de ajuda mútua, solidarismo cristão, estado de bem estar social, socialismo), retorna com força total no globalitarismo financeiro. Liberta dos inconvenientes do controle social, a essência destrutiva que sempre habitou o cerne do capital é a catástrofe que nos ameaça.

E o presidente mascate, esquecido do seu tempo de retirante, se apresenta para cumprir o papel que lhe cabe na engrenagem infernal. No carvão ou na cana, para não atrapalhar o fluxo dos negócios, o destino do trabalhador, no século 18 ou no 21, é comer o pão que o diabo amassou. É um imperativo categórico para o crescimento, coisa natural e inevitável, a prática que agride o meio ambiente e esfola o trabalhador. Ao governante, como pensa o presidente mascate, resta o papel de apertar as alças do garrote vil.

Alguns estudiosos de outros tempos sombrios, aqueles dominados pela vigência direta do trabalho escravo, lançam luz sobre um aspecto curioso das relações de poder no interior do mecanismo de exploração do trabalho. O feitor mais eficaz, aquele que com mais desenvoltura acionava o chicote, era o ex-escravo. Mudou de lado e, por isso mesmo, está sempre obrigado a renovar as provas de sintonia fina com o senhor. O raciocínio, infelizmente, se aplica ao caso em pauta: o presidente mascate é um feitor do capitalismo cruel.

20-Set-2007
Léo Lince é sociólogo.

domingo, 16 de setembro de 2007

Os comunistas e os acordos de poder


Em http://comunistas.info é publicada uma interessante entrevista com Luís Fazenda, líder da bancada parlamentar bloquista, sobre o problema da participação dos comunistas nos governos. A entrevista também foca o recente acordo com o PS para a CML. Aqui fica a dita, para ler com atenção.

"A perspectiva do socialismo como estratégia pode passar por participações no governo ou não passar. Não há dogma. Depende da análise concreta da situação concreta, da natureza da crise do capitalismo, da predisposição das massas trabalhadoras, da relação de forças internas e externas ao país, entre outros factores."
Comunistas.info: Achas que a participação de comunistas e da esquerda em coligações faz sentido em pleno capitalismo, e sem que primeiro se opere a grande transformação social, económica e política a que chamamos revolução?
Luís Fazenda: A participação de formações marxistas em governos de coligação no quadro do capitalismo não é, só por si, surpreendente. Já nos anos 30 do século passado, esse facto impôs-se com o governo de Frente Popular em França, apontado pela Internacional Comunista como exemplo a seguir para travar o ascenso do fascismo. Não se desconhece toda a imensa controvérsia sobre essa posição, quer antes, quer depois. No geral, essa polémica apenas alimentou o sectarismo e facilitou a vida a aspirantes à burguesia. Convém lembrar que, já antes, com objectivo diferente, o de aprofundar a crise do capitalismo, Lenine não tinha descartado a possibilidade de coligações entre os comunistas, outras alas esquerdas, e social-democratas. O dirigente comunista punha a finalidade de frente única em oposição ao oportunismo ministerialista dos social-democratas em governos burgueses. Tratava-se de situações em que o avanço revolucionário não seria imediato. Essas reflexões pouco passaram disso mesmo devido ao massacre dos comunistas alemães em 19, não sendo o único caso de repressão à ordem dos social-democratas. Não se pode simplificar a história e fazer equivaler situações de parlamentarismo, levantamento revolucionário, ou guerra imperialista. Não o farei aqui. Devo apenas sublinhar que a questão não é nova e que a formulação dos objectivos de um governo de coligação é o seu conteúdo, e que a composição e forma de tal governo só pode ser a garantia desses objectivos. Envolver esta questão no debate entre reforma e revolução só turva a táctica dos partidos. A perspectiva do socialismo como estratégia pode passar por participações no governo ou não passar. Não há dogma. Depende da análise concreta da situação concreta, da natureza da crise do capitalismo, da predisposição das massas trabalhadoras, da relação de forças internas e externas ao país, entre outros factores.
Comunistas.info: Como comentas as diversas experiências em curso no mundo em que os comunistas e outras formações de esquerda participam em soluções de governo, na Europa e no Mundo?
Luís Fazenda: Das experiências enunciadas de participação actual de comunistas em governos formados pela via parlamentar convém talvez deixar para outra reflexão a experiência de governos regionais na Alemanha, Catalunha, Brasil ou Índia. Pontuam aqui realidades muito diferentes, tempo e competências muito diferentes, partidos comunistas eles próprios muito diferentes também. Em todo o caso são governos afastados do núcleo da soberania do estado, portanto não definitórios do perfil dos marxistas face ao poder. Parece que se devem dispensar desta análise os ex-comunistas da Suécia e da Finlândia que renunciaram ao objectivo do socialismo. Faço notar que o Partido da Esquerda da Suécia proclamou como finalidade alcançar o “capitalismo democrático”. Nas condições internacionais actuais, de aguda defensiva das forças socialistas e democráticas, a meu ver, só faz sentido participar em governos de coligação com outras forças e aí dar o sinal dos comunistas, caso esse governo rompa com as políticas neo-liberais e com a máquina de guerra da NATO. Exceptuam-se, claro, circunstâncias, nesta ou naquela zona do globo, em que estados possam atravessar uma formidável convulsão e a prioridade seja a paz imediata e a instauração da democracia. Os marxistas não escolhem aliados em abstracto por mero catálogo ideológico. A luta social pode vir a abrir, em Portugal e em vários países da União Europeia, a possibilidade de um “governo de esquerdas” desatrelado do hegemonismo dos EUA, reestruturando os direitos sociais. Contudo, esse contexto não parece ser próximo. O centro da nossa atenção só pode estar virado para isolar os capitães da finança e os sargentos de escala do poder. A participação dos comunistas sul-africanos no governo do país tem, a meu ver, claramente dois momentos. O primeiro compromisso, sob a égide de Mandela e do ANC, inteiramente justificável e necessário, para consolidar a vitória sobre o regime racista, facto de alcance mundial. Nos últimos anos, lamentavelmente, o PC da África do Sul persiste equivocadamente no poder, sancionando um capitalismo muito agressivo contra os trabalhadores sul-africanos. Nos casos do Brasil e de Itália, ressalvando as imensas características diversas dessas experiências, os comunistas propuseram-se mitigar o neo-liberalismo. Sem sucesso e com desfecho dúbio. O governo francês de Jospin já tinha mostrado o desastre desse ensaio. Especialmente grave é o envolvimento objectivo da Refundação Comunista de Itália na política externa pró-NATO de Prodi.
Comunistas.info: Como aprecias a esta luz as peripécias na formação de uma vereação de coligação em Lisboa? E quais as implicações que a participação ou recusa poderão ter para as fases seguintes do processo político português, nomeadamente quanto à competição das legislativas daqui a dois anos?
Luís Fazenda: A partilha de responsabilidades executivas na Câmara Municipal de Lisboa deriva de uma dinâmica local, no caso do Bloco de Esquerda. O PCP durante muitos anos apresentou a coligação PS-PCP na CML como a prova de que era possível uma aliança nacional entre esses partidos. Mais do que a letra dos documentos vale a interpretação de Carvalhas em muitas entrevistas públicas. Hoje a antiga “prova” passou a “corpo de delito”. O voto dos cidadãos tem demonstrado que crescentemente se separa a esfera autárquica da esfera parlamentar. Julgo que as pessoas vão fazer essa distinção em 2009. Tanto para aqueles que decidiram tomar responsabilidades executivas como para os que o não fizeram no caso autárquico, e sem interferência relevante na disputa das legislativas. Uma coisa é um acordo limitado a algumas políticas da cidade, outra bem distante é uma avaliação sobre o rumo liberal da governação e das alternativas. O Bloco de Esquerda não manipula as autarquias para a política nacional. Creio mesmo que no nosso país é uma temeridade pensar que o espaço autárquico seja privilegiado para alterar a rota geral de qualquer partido. Infelizmente é o espaço mais feudal da política. A desagregação do bloco central de interesses passa muito pelos movimentos sociais, em marco nacional e em frente europeia.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

O caso Renan Calheiros, a boazona e o PT

O caso Renan Calheiros mostra o ponto a que chegou o PT do Brasil. Entre os vários artigos publicados há um elucidativo publicado em http://www.correiocidadania.com.br/content/view/846/45/. É o que passamos a transcrever. Por ironia, publicamos seguidamente a foto promotora da playboy sobre a menina de Renan e um cómico gráfismo sobre o caso.

Escrito por Léo Lince
13-Set-2007

O mau exemplo vem de cima aos borbotões. Para sustentar um morto-vivo na presidência do parlamento brasileiro, o Senado Federal teve que adquirir temporariamente as feições de um sarcófago. Conhecida em outros tempos como câmara alta, a casa funcionou como um curral enlameado, um verdadeiro baixio das bestas.

O voto foi secreto, a sessão foi secreta, os microfones e fios telefônicos foram cortados, os celulares proibidos. Não houve ata escrita ou registros gravados para a história de tudo o que foi dito em tal conclave de anormais. Os patrocinadores e os beneficiários do evento precisavam das sombras para agir com desenvoltura e alcançar o seu desígnio imediato. Conseguiram.

Todos sabem que se o voto fosse aberto e a sessão escancarada o resultado seria outro. Era preciso afastar os olhos do povo e estabelecer uma lacuna no registro histórico para que os maus representantes pudessem operar no contraponto dos anseios da consciência digna da cidadania. Para salvar não apenas o indigitado Renan, mas também o tipo de política que ele bem representa, o Senado Federal entrou na clandestinidade.

No teatro de sombras, rolou de tudo. Os jornais de véspera noticiaram que empresários pressionavam senadores. Não disseram quais, nem precisava. São os de sempre. A malha de cumplicidades que articula o mundo dos negócios com a política de negócios sempre opera na penumbra. Na sessão fechada, o acusado teve condições de distribuir ameaças e chantagens sem quebrar a “omertá”. E, longe dos olhos do cidadão, a bancada do PT adquiriu uma súbita desenvoltura na defesa do seu aliado. A elisão da ótica, como talvez diria o deputado Chico Alencar, facilitou ainda mais o avanço da “ilusão de ética”.

Ainda não se sabe ao certo qual será o desdobramento, no ânimo geral da sociedade, de mais esse tapa na cara da cidadania. O desencanto da massa do povo com a política, que já era grande, tende a aumentar. Ao mesmo tempo, é bom registrar que nas chamadas estruturas intermediárias que organizam minimamente a vida social a reação foi de rechaço e de manifesta indignação ao acontecido. Para estes, o tal “manto de silêncio” não funcionou. Serviu mais para mostrar do que para encobrir e, dependendo do rumo dos acontecimentos, pode virar mortalha para seus patrocinadores e beneficiários.

O circo montado para a fatídica votação secreta do Senado foi uma apoteose da pequena política. O governo jogou pesado. Nomeou para os altos escalões, liberou emendas, colocou seu líder e seu articulador político na tropa de choque. O PT operou de uma maneira no aberto e de outra no fechado. Quando Lula declarou que o importante era respeitar a decisão soberana do Senado, certamente, já sabia do acórdão.

Os vitoriosos com o resultado, execrados pela opinião pública, comemoram envergonhados. Os que perderam caminharão nas ruas de cabeça erguida. As “cartas dos leitores” recolhem o sentimento da cidadania. Os parlamentares que recorreram ao Supremo para furar o bloqueio funcionam como um enclave de vida no parlamento amortalhado. O pequenino PSOL, que desencadeou o processo, já engatilha outros petardos na cartucheira. São, entre outras, expressões do rechaço da sociedade ao tipo de governabilidade que, no episódio em pauta, adquiriu feições na simbiose Lula - Renan.

Léo Lince é sociólogo.
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quinta-feira, 13 de setembro de 2007

A confusão "comunista" e a Festa do Avante


(foto: http://pantanero.blogs.sapo.pt/)
A Festa do Avante é um acontecimento de elevado valor cultural. A ela confluem imensas pessoas independentemente do partido a que pertencem. Deve-se valorizar essa referência.
A festa é também um momento de debate, bem patente no programa deste ano.
Um dos debates mais aguardados foi o que juntou o Partido Comunista do Brasil, no poder com o governo Lula e o PT (também presente), o Partido Comunista da China e o Partido Comunista da Federação Russa. Poderia ter sido um grande debate em torno das questões mais inquietantes nomeadamente quanto à relação dos comunistas com o poder e os programas que rompam com o neoliberalismo e com a guerra imperialista. Mas isso não saiu.
Gostaríamos de ter ouvido de Altamiro Borges, um escritor sempre presente no portal Vermelho, outras palavras sobre a tese de “um governo em disputa” mas sempre legislando cada vez mais à direita que, como cá, faz coisas que nem o anterior foi capaz, que ataca os direitos sindicais e dos trabalhadores, que nega a sempre prometida reforma agrária; gostaríamos de ter ouvido de Altamiro outra informação sobre como se faz uma coligação, o Bloco de Esquerda, com partidos como o PDT que controlam centrais como a direitista Força Sindical ao mesmo tempo que se lança uma nova central sindical sem procurar união de forças do combate dos trabalhadores.
Gostaríamos de ter ouvido do representante chinês outras palavras sobre a democracia na China – a democracia para o povo – enquanto sobe exponencialmente a riqueza de uns poucos, a diferenciação de classes e uma brutal repressão sobre a classe operária… ou sobre o entrelaçamento da China com os EUA e as suas posições conciliadoras (para não dizer um adjectivo mais verdadeiro mais duro) com o belicismo e a guerra opressora.
Noutros lugares, gostaríamos de ter ouvido do representante do MPLA qualquer coisa sobre porque não há eleições em Angola, porque a família Dos Santos enriquece escandalosamente e escandalosamente faz intenção de mostrar a usurpação das riquezas e do esforço do povo angolano, submetido a dura fome, miséria e desemprego, expulso de suas casas (barracas) à frente da tropa de choque para que aí se instalem as novas urbanizações da florescente burguesia angolana.
Só se pode acabar como Sérgio Ribeiro começou o debate “Vivemos um tempo de enganos em que as palavras são úteis para iludir”.

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

o segundo Vietname

O império achou que podia controlar o Iraque. Fora do jogo dos sistema capitalista normalizado e do comércio monopolista o Iraque e as suas riquezas eram um pitéu apetecível. Além do mais, as multinacionais tinham dificuldade em integrar o território e a sua economia nos seus lugares de lucro. Bombardear o Iraque não afectava as fábricas da VW, da Intel, da Wallmart…
O ataque foi rápido e mediatizado. As recentes maravilhas da máquina de guerra imperialista desfizeram rapidamente a resistência. As TVs até davam conta de alguns festejos populares.
Mas parece que não há sol que sempre dure. Uma coisa foi ocupar e derrotar militarmente, outra foi exercer um sistema de poder “normalizado” e rapinar eficazmente o petróleo. A pouco e pouco o caos instalou-se. O governo não governava, o petróleo não saía, a crise tornou-se fome , matança, desespero total. Todos contra os ocupantes e todos contra todos.
Caiu a mentira que sustentava politicamente a guerra e a pouco e pouco caíram os aliados dos EUA. Agora até os ingleses falam em retirada – se Brown quizer ganhar as eleições.
A guerra não dá lucro, tornou-se um sorvedouro de dinheiro.
A guerra tornou-se uma derrota militar. Todos os dias caem militares norte-americanos vitimados por bombistas suicidas – uma das novidades desta guerra. Todos os dias as Tvs americanas anunciam que morreram mais uns tantos.
A mediatização dos caixões é tal que o governo proibiu que se filmasse a sua chegada. A mediatização da morte dos soldados é o facto novo que traz a derrota para dentro das portas do centro do império.
Agora as comparações são com o Vietname apesar de ainda ter morrido um décimo dos americanos que morreram nesse país. É a mediatização que marca a diferença.
A derrota é total, militar, política, ideológica, económica.
O problema agora é outro, é como sair, e aí voltam as imagens do Vietname. O problema agora já não é como ficar, é como sair.

sábado, 8 de setembro de 2007

A propósito da propriedade privada


A recente invasão de jovens ecologistas de uma propriedade privada trouxe intensa polémica. A burguesia e seus representantes no poder, no sistema partidário e na imprensa sairam em alvoroço contra tão bárbara agressão. O texto que aqui reproduzimos traz-nos uma abordagem qualificada centrada na


Ideologia da posse


A palavra ideologia é utilizada com vários sentidos na história do pensamento humano. Podemos fazer referência aqui, basicamente, a dois deles e que caracterizam significativamente sua utilização política: a) a ideologia para Marx, como sendo um conjunto de construções teóricas com a pretensão de falsificar a interpretação da realidade e manter situações de opressão; b) a ideologia para Gramsci, designando um conjunto de idéias, crenças e valores que constituem a visão de mundo de um determinado grupo social ou povo. Assim, embora pareça existir uma mera contradição entre as duas compreensões, há características que as unificam, visto que não há uma leitura absoluta da realidade. A ideologia (visão de mundo de um povo) não deixa de ser uma pretensão de verdade, contendo falsificações e, por outro lado, mesmo que as admitamos, não é possível abandoná-las, já que as pessoas não são neutras e seu posicionamento implica uma postura ideológica.
A propriedade é um princípio central da disputa ideológica na sociedade. Para o liberalismo a propriedade é encarada como um direito sagrado do indivíduo e, portanto, interessa sobremaneira sua legitimação em forma de lei para a preservação da ordem social. Um dos principais pensadores ao qual os liberais recorrem para afirmar o direito à propriedade é John Locke, utilizando, principalmente, sua obra Segundo Tratado sobre o Governo Civil. Em Locke encontramos uma defesa da propriedade como resultante do trabalho humano. A função do Estado passa a ser a instituição da garantia de preservação da propriedade: “Considero, portanto, o poder político o direito de fazer leis, para preservar e regular a propriedade” [1]. Para Locke “o homem procura juntar-se em sociedade com outros que já estão unidos, ou pretendem unir-se para a mútua conservação da vida, da liberdade e dos bens que chamo propriedade” [2]. Verifica-se, assim, que, para Locke, a idéia de propriedade se refere à vida, à liberdade e aos bens, sendo que os liberais, em sua leitura, confundem propriedade com bens. Com base no conceito de Locke, a propriedade não necessariamente precisa ser privada, inclusive porque se os bens concentrados não cumprem com o princípio da vida e da liberdade o conceito de propriedade se anula. Locke chega a enfatizar, claramente, a função social dos bens, afirmando que estes pertencem ao indivíduo somente em caso de abundância e de garantia de manutenção da sua boa qualidade para terceiros[3]. Para Rousseau, importante pensador do jusnaturalismo e um dos primeiros críticos sociais, a propriedade configura a origem da desigualdade entre os seres humanos. Através do Estado e do Direito, os burgueses só converteram em lei (convenções) o que antes já possuíam por força (o que não constituía um direito). “O verdadeiro fundador da sociedade civil foi o primeiro que, tendo cercado um terreno, lembrou-se de dizer ‘isto é meu’ e encontrou pessoas suficientemente simples para acreditá-lo. Quantos crimes, quantas guerras, assassínios, misérias e horrores não pouparia ao gênero humano aquele que, arrancando as estacas ou enchendo o fosso, tivesse gritado a seus semelhantes: ‘defendei-vos de ouvir esse impostor; estareis perdidos se esquecerdes que os frutos são de todos e que a terra não pertence a ninguém!”[4].
Mais tarde, Proudhon caracteriza a propriedade como sendo um “roubo” e, principalmente com Marx, o direito burguês da propriedade passa a ser o maior alvo da crítica social. Importante para o debate posterior, entretanto, é a necessidade de regulamentar a propriedade como acessível a todos, ou então, assegurar a sua função social.
Diante do exposto, nos parece impossível conceber a discussão da propriedade como “não ideológica”, já que ela assume uma centralidade na luta de classes e é apresentada como origem do Estado e do próprio arcabouço jurídico. Não podemos, nesse sentido, deixar de discutir os fundamentos do direito de propriedade e seguir aplicando simplesmente o que uma determinada lei prevê, sob o risco de estarmos reproduzindo o ideário jurídico burguês-liberal. É necessário, portanto, construir uma postura crítica do próprio Direito, para que a interpretação jurídica tenha qualquer pretensão de justiça. Ao trazermos a questão da propriedade para a esfera do Direito, no entanto, nos confrontamos com outro conceito, freqüentemente utilizado para determinar ações que se relacionam com a propriedade: a posse. Cabe então uma interrogação: qual é a relação do direito de posse com a propriedade?
A discussão acerca da posse como um direito jurídico nos remete a uma complexidade intrínseca à sua definição conceitual. Segundo Savigny a posse independe da propriedade e sua centralidade está no possuidor. Para Jhering, o que fundamenta o direito de posse é a propriedade privada, contrariando Savigny e apresentando uma abordagem mais progressista da questão. Analisando a etimologia da palavra posse (no latim) essa confere a caracterização de domínio, assenhoramento, dominação e apropriação. Com o decorrer do tempo, o Direito desenvolveu várias compreensões acerca do termo. No Direito germânico medieval, por exemplo, a posse consistia no domínio sobre algo, como sendo um direito real, não sendo admitida a violação da posse sem que, com isso, estivesse pressuposta a violação da propriedade. O Direito romano, por sua vez, separou a posse da propriedade. O Direito Canônico também teve sua participação na construção de um entendimento do conceito de posse, ampliando o campo da aplicação possessória, estendendo-a aos direitos pessoais e “espiritualizando” a posse.
No debate atual cabe a reflexão sobre a manifestação da ideologia nas ações jurídicas acerca da posse e até que ponto isso é negativo ou positivo. Para evitar o reforço à estrutura sócio-econômica de opressão social, a única alternativa viável é romper com a lógica positivista do Direito. No entanto, como parece inevitável a presença da ideologia, também no Direito (já que não há neutralidade entre sujeitos e toda interpretação é subjetiva), é importante pautar o quanto o progresso permanece possível diante do que está dado como lei. Portanto, a pretensão é meramente seguir a lei, para que ela seja cumprida, ou, ao interpretá-la, construir novos sentidos para sua aplicação que podem contribuir para a constituição de leis mais progressistas, estando a sociedade ciente do que elas significam?
O jurista, certamente, tem uma participação importante no estabelecimento de uma lei, a ponto de participar da responsabilidade na sua futura interpretação, alteração ou permanência. Por isso, a consciência da presença da ideologia e a exigência da crítica constante dos elementos fundantes da posse e da propriedade são decisivos na atuação jurídica, de forma que os efeitos da interpretação e da aplicação de leis possam se dar com vistas a uma maior mobilização, organização e participação da sociedade civil. Caso contrário, o Direito permanece conservado como mero aparelho ideológico a serviço da manutenção da desigualdade e da injustiça social.

[1] LOCKE, John. Segundo Tratado sobre o Governo Civil. In: Os Pensadores, 2ª. Ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978.
[2] Idem.
[3] Idem, p. 45.
[4] ROUSSEAU, Jean Jaques. Discurso sobre a Origem e os Fundamentos da Desigualdade entre os Homens. In: Os Pensadores, São Paulo: Abril Cultural, 1983, p. 270.

ANTÔNIO INÁCIO ANDRIOLI , http://www.andrioli.com.br/, Professor do Mestrado em Educação nas Ciências da UNIJUÍ - RS. Doutor em Ciências Econômicas e Sociais pela Universidade de Osnabrück – Alemanha


sexta-feira, 7 de setembro de 2007

Jerónimo de Sousa e a Revolução de Outubro


Jerónimo de Sousa foi entrevistado pelo Jornal Público, no dia em que começa uma nova edição da Festa do Avante – uma das maiores manifestações culturais de Portugal e onde se celebrará a Revolução de Outubro.
O Secretário-geral do PCP valoriza as conquistas da revolução. É justa que assim seja. As conquistas revolucionárias foram pioneiras em todo o mundo e um grande avanço civilizacional. A Revolução de Outubro abriu ainda um manancial de esperança que se propagou exponencialmente pelo mundo.
Mas celebrar as conquistas revolucionárias também é resgatar a filosofia e a alternativa de socialista face ao capitalismo. E isso fica sem saída se não declararmos o espírito aberto para a reflexão sobre o que é que correu mal – em verdade, o socialismo caiu.
A persistência no dogmatismo, na negação de evidências como a fusão entre o partido e o Estado, a imposição do partido único – apesar das diferenciações sociais e de classe, o abandono da democracia popular e a sua substituição pela ditadura dos chefes e pelo Estado policial, a criação e o crescimento de uma nova burguesia, guerreira e opressora, a falência da economia ou o desastre ambiental não se coadunam com os princípios marxistas. E desarma-nos para declararmos como hoje a China é um dos expoentes maiores do capitalismo selvagem.
Transformar o ideal comunista numa fé parece-me contraditório com o materialismo histórico e dialéctico. É coisa que não bate certo.
Mas aqui fica a nota.

Extracto da entrevista de Jerónimo de Sousa:
A Festa do Avante! comemora este ano os 90 anos da revolução soviética. O PCP continua a celebrar a URSS?
Noventa anos da Revolução de Outubro, nós continuamos a celebrar um momento histórico em que o ser humano ousou tocar o céu, procurando libertar-se do regime brutal czarista que trazia um povo inteiro na miséria e na opressão. Foi um acto heróico mas também a resposta a uma necessidade objectiva no plano do desenvolvimento social. A obra realizada por essa revolução, a intervenção dos trabalhadores, a ideia de um país atrasado que chegou a ocupar lugares primaciais no concerto das nações, uma revolução que foi capaz de ter um papel decisivo na derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial, os direitos adquiridos pelos trabalhadores: continua a fazer sentido comemorar a Revolução de Outubro e todas as mudanças sociais que se operaram, tanto na União Soviética, como nos países ocidentais próximos, que sentiram necessidade de reconhecer direitos aos seus trabalhadores. Se há alguma lição a tirar, verifica-se que, após a destruição da URSS, houve como um acerto de contas, em muitos países, para recuperar parcelas do domínio perdido, particularmente dos direitos dos trabalhadores.
Acha que o avanço do neoliberalismo é uma consequência do fim da URSS?
Não é uma consequência, mas há mais condições para [o neoliberalismo] avançar, por haver uma correlação de forças profundamente desfavorável aos trabalhadores e aos povos, para recuperar essa parcela perdida no plano dos direitos, dos salários, dos horários. Há aqui uma tentativa de recuperação, em resultado dessa correlação de forças, por desaparecimento do pólo que condicionava o socialismo nesses países.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

EDP e REN, não há vergonha na cara


Os senhores da administração da REN e da EDP retiraram o acesso gratuito dos reformados da EDP e REN aos refeitórios. A moral destes senhores e que não há igualdade entre os reformados, pois os da província não têm refeitórios onde ir comer gratuitamente. Na linha do PS a igualdade para estes senhores é tirar a todos.
Outra saída seria atribuir um subsídio de refeição (+- 5 €) aos reformados que não têm acesso aos refeitórios – claro que isso seria muito caro para empresas tão pobrezinhas e de lucros tão insignificantes.
É simplesmente revoltante ver senhores como o “camarada” José Penedos, presidente da REN ganhar 272.658 € anuais, ter um subsídio de refeição de 2.238 € e como é muito pobrezinho o “camarada” recebe ainda umas despesas de representação de 8.529 €. Quando se reformar terá um pequeno complemento de reforma de 45.443 €. Assim este “camarada” já terá dinheiro suficiente para não precisar almoçar no refeitório e não se juntar com a escumalha trabalhadora.

sábado, 1 de setembro de 2007

Luta contra a precariedade dos enfermeiros


A luta dos enfermeiros é uma luta que interessa a todos os cidadãos pois é uma luta pelo serviço público de saúde. Leia www.sep.org.pt.

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

O PT no Brasil versus o PS em Portugal


SONETO DA DESCULPA ESFARRAPADA [1132]

Partido que se dizia melhor
que os outros, mas que aos mesmos já se iguala,
na prática e nas petas que propala,
revela-se, no fundo, até pior.

Dos outros já sabíamos de cor
que a lábia, a falcatrua, a grana em mala,
juntavam todos numa mesma vala
comum, desde os maiores ao menor.

Mas quando companheiros de jornada
utópica e ideológica se passam,
sem pejo, para o lado da cambada,

agravam-se os motivos que os desgraçam!
Se vis "fins" justificam "meios", nada
nos resta! Só de bobos não nos façam!


Glauco Mattoso é poeta, letrista e ensaísta.

retirado de http://sites.uol.com.br/glaucomattoso

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

Novas fotos de Pearl Harbor

Recebemos, por e-mail, a notícia de que foram encontradas novas fotos do bombardeamento em Pearl Harbor, 7 de dezembro de 1941, no início da 2ª Guerra Mundial.
"As fotos estavam armazenadas numa velha camera Brownie, desde 1941 e foram encontradas no armário de um marinheiro que serviu no USS Quapaw.
A qualidade das fotos é surpreendente e o valor histórico inestimável pois foram tiradas durante o ataque a Pearl Harbor".
Leia aqui o que diz a Wikipedia sobre este ataque.